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Álvaro Santi - Músico - Escritor - Porto Alegre/RS

Prosa

Blau Nunes e ¬ďO narrador¬Ē de Walter Benjamin: confrontos (ensaio, 1996)

√Ālvaro Santi

Encontramos no texto de Walter Benjamin, O Narrador, diversas ¬ďobserva√ß√Ķes¬Ē ¬ó como diz o subt√≠tulo ¬ó que, embora dirigidas √† obra de um autor russo entre n√≥s praticamente desconhecido, talvez apresentem algum interesse enquanto possamos refletir, √† luz delas, sobre narradores mais pr√≥ximos. √Č o que procuramos esbo√ßar neste ensaio.
Cronista ou narrador?
A pr√≥pria acep√ß√£o da palavra alem√£ Erz√§hler, traduzida como narrador, e literalmente traduz√≠vel como ¬ďcontador¬Ē (de contar, enumerar), remete-nos ao significado original da palavra cr√īnica, hist√≥ria contada de forma enumerativa, como seq√ľ√™ncia de acontecimentos ordenados cronologicamente. Segundo Benjamin, os cronistas medievais, precursores dos modernos historiadores, ao contr√°rio destes,
¬ď...na medida em que subordinavam a historiografia ao plano divino da salva√ß√£o, que √© imperscrut√°vel, livravam-se de antem√£o do peso da explica√ß√£o demonstr√°vel. Entra em seu lugar a interpreta√ß√£o, que nada tem a ver com o encadeamento preciso dos acontecimentos, mas com a maneira de enquadr√°-los no curso insond√°vel do universo... O cronista conservou-se no narrador numa forma metamorfoseada, por assim dizer secularizada.¬Ē .
No caso espec√≠fico do Brasil,, o gosto pela cr√īnica hist√≥rica, origin√°rio da tradi√ß√£o portuguesa da √©poca dos descobrimentos, √© uma das primeiras linhas mestras a se manifestarem na literatura, adquirindo aqui caracter√≠sticas pr√≥prias.
¬ď... a atitude desses cronistas, acompanhando o processo de identifica√ß√£o do colonizador europeu com a paisagem americana, √© o germe da nossa historiografia, na sua maneira informativa e descritiva, a partir do testemunho pessoal, da observa√ß√£o direta e da informa√ß√£o de terceiros at√© o fundamento indispens√°vel da documenta√ß√£o. √Č, tamb√©m, com o louvor da terra, o germe do sentimento nativista, como ponto de partida, embora remoto, da forma√ß√£o da consci√™ncia nacional.¬Ē
J√° a√≠ podemos notar uma grande afinidade entre o narrador de Benjamin, originado no cronista, e o narrador regionalista brasileiro, de que vamos tratar. Ao contr√°rio de uma tradi√ß√£o europ√©ia, que acreditou encontrar enfim na Am√©rica o ¬ďpara√≠so terrestre¬Ē, a promessa do ¬ďEldorado¬Ē, para o nosso narrador, quatro s√©culos mais tarde, o para√≠so est√° irremediavelmente perdido, no passado. Diz Benjamin:
¬ďA √©poca em que o homem podia acreditar-se em sintonia com a natureza, diz Leskow, acabou. Schiller chamou essa √©poca do mundo de √©poca da poesia ing√™nua.¬Ē
Acredito que tamb√©m podemos cham√°-la ¬ďm√≠tica¬Ē. Blau Nunes, o narrador dos Contos Gauchescos, parece vir de uma tal √©poca.
Sobre a rela√ß√£o entre hist√≥ria e narrativa em Sim√Ķes Lopes Neto, a cr√≠tica aponta para dire√ß√Ķes diversas. Ao analisar ¬ďA Salamanca do Jarau¬Ē, Fl√°vio Loureiro Chaves demonstra exaustivamente a inser√ß√£o do narrador Blau Nunes (personagem, e n√£o her√≥i) no plano da hist√≥ria, fora do plano m√≠tico, portanto. Embora aproveitando-se de uma lenda preexistente, Sim√Ķes Lopes Neto reescreve com ela um conto √† luz do seu tempo e lugar, terminando o mundo humano por destruir o mito.
Regina Zilberman, ao contr√°rio, escreve: ¬ď...com ele, a mitologia ga√ļcha alcan√ßa seu apogeu, pois Sim√Ķes Lopes al√ßa o vaqueano √† condi√ß√£o de mito com os Contos Gauchescos e Lendas do Sul, para depois dessacraliz√°-lo, nos Casos do Romualdo.¬Ē
L√≠gia Chiappini atribui a problematiza√ß√£o desta hist√≥ria √† mudan√ßa do foco narrativo, tendo como conseq√ľ√™ncia ¬ďa relativiza√ß√£o da historiografia escrita do ponto de vista da classe dominante¬Ē.
Ao comentar a c√©lebre pol√™mica sustentada em 1925 entre Moys√©s Vellinho e Rubens de Barcellos a respeito da obra de Alcides Maia, Jos√© Clemente Pozenato observa que as duas dimens√Ķes ¬ó m√≠tica e hist√≥rica ¬ó convivem, e n√£o se excluem:
¬ď... ao lado de uma gauchesca de car√°ter document√°rio, seguindo passo a passo as transforma√ß√Ķes do tipo social do ga√ļcho, h√° uma outra de car√°ter que se poderia chamar m√≠tico, onde a imagem fixada permanece id√™ntica ao padr√£o original, tamb√©m ele m√≠tico.¬Ē
Narrador & personagem
Pozenato tamb√©m enfatiza com muita felicidade as conseq√ľ√™ncias do duplo papel narrador-personagem atribu√≠do a Blau Nunes, que assume import√Ęncia muito maior do que quaisquer personagens dos causos por ele narrados:
¬ďA √ļnica personagem criada por Sim√Ķes Lopes Neto em Contos Gauchescos √© Blau Nunes, o vaqueano. E isto √© de significa√ß√£o primordial para a compreens√£o do modo de ser de sua obra... O autor desaparece diante dessa figura que fala: torna-se simples e humildemente um rapsodo, algu√©m que deixa passar o dito de outro, que √© o verdadeiro poeta, o criador de uma realidade... Blau Nunes √© sua linguagem, √© sua fala. Ele n√£o √© narrado por outr√©m, n√£o √© visto de fora. N√£o tem narrador, tem apenas ouvinte. O mundo come√ßa a existir quando ele come√ßa a falar.¬Ē
Regina Zilberman relativiza esta exclusividade de Blau Nunes, observando que ele protagoniza apenas o conto inicial (¬ďTrezentas On√ßas¬Ē): ¬ďAs demais hist√≥rias t√™m outros protagonistas, passando Blau a um lugar secund√°rio, enquanto testemunha dos eventos ou mero colaborador para o andamento da a√ß√£o¬Ē Podemos observar tamb√©m em ¬ďOs Cabelos da China¬Ē uma participa√ß√£o mais efetiva do narrador na a√ß√£o do que nos demais contos; e em ¬ďCorrer Eguada¬Ē, onde o tom memorialista-descritivo n√£o destaca nenhum personagem em especial.
Para Fl√°vio Loureiro. Chaves, os Contos Gauchescos, por serem narrados por um √ļnico personagem a um √ļnico ouvinte, formam uma unidade narrativa, superando a fragmenta√ß√£o aparente, ¬ď... o motivo da viagem servindo para deflagrar no espa√ßo da mem√≥ria a atualiza√ß√£o do passado, assegurando assim a relativa unidade da seq√ľ√™ncia epis√≥dica¬Ē.
N√īmade ou sedent√°rio?
√Č curioso notar que Blau Nunes sintetiza muito bem a polaridade estabelecida por Benjamin entre dois tipos b√°sicos de narradores, conforme sua origem:
¬ďQuando algu√©m faz uma viagem, ent√£o tem alguma coisa para contar, diz a voz do povo e imagina o narrador como algu√©m que vem de longe. Mas n√£o √© com menos prazer que se ouve aquele que, vivendo honestamente do seu trabalho, ficou em casa e conhece as hist√≥rias e tradi√ß√Ķes de sua terra. Se se quer presentificar esses dois grupos nos seus representantes arcaicos, ent√£o um est√° encarnado no lavrador sedent√°rio e o outro no marinheiro mercante. De fato os c√≠rculos vitais de ambos de certo modo produziram sua pr√≥pria linhagem de narradores.¬Ē
Segundo Benjamin, o trabalho de Leskow o obrigava a freq√ľentes viagens pela R√ļssia, ¬ď... e tais viagens incrementaram seu discernimento do mundo tanto quanto seu conhecimento das condi√ß√Ķes de vida russas¬Ē .
√Č de se esperar que o car√°ter regionalista da literatura fosse de inteira responsabilidade de um narrador sedent√°rio. Por√©m o tropeiro Blau Nunes, de vida quase n√īmade, entre per√≠odos de guerra e de paz aprendeu tamb√©m ¬ďas hist√≥rias e tradi√ß√Ķes de sua terra¬Ē, o que podemos especialmente comprovar nas Lendas do Sul. E procura ele mesmo compor novas, que s√£o os Contos Gauchescos. Pode agora aliar, como diz Benjamin, ¬ď... o conhecimento do lugar distante, como o traz para casa o homem viajado, com o conhecimento do passado, da forma como este se oferece de prefer√™ncia ao sedent√°rio.¬Ē N√£o era de se esperar que o gaud√©rio (conforme a acep√ß√£o original da palavra), tipo puramente n√īmade do pampa, tido como p√°ria marginalizado e semi-b√°rbaro pudesse, com facilidade, converter-se ¬ď...na forma em que o justo encontra a si mesmo¬Ē.
Esta visada sociol√≥gica, que relaciona a origem da atividade do narrador com sua atividade econ√īmica, encontra eco no j√° citado ensaio de Pozenato. A pouca aten√ß√£o dada √† descri√ß√£o da natureza, para ele, est√° na medida inversa daquela dispensada ao trabalho do homem sobre esta natureza. √Č f√°cil encontrar exemplos em quase todos os contos.
No livro O Ga√ļcho: Fic√ß√£o e Realidade, Ant√īnio Hohlfeldt v√™ no momento hist√≥rico de transi√ß√£o a possibilidade dessa s√≠ntese entre o n√īmade e o sedent√°rio. Para ele, as a√ß√Ķes narradas por Blau Nunes...
¬ď... traduzem, de maneira clara, uma tentativa de compreens√£o, de liga√ß√£o entre dois per√≠odos distintos: aquele da liberdade sem fim e da inexist√™ncia de cercas e o do nascimento da propriedade demarcada. O sedentarismo come√ßa a existir no pampa e com ele as primeiras estruturas feudais e depois classistas, diferenciando-se o patr√£o e o pe√£o.¬Ē
O mesmo crítico soube superar com felicidade esta aparente dicotomia, ainda objeto de discussão na historiografia do Rio Grande do Sul:
¬ďPorque o nomadismo n√£o exclui a esperan√ßa long√≠nqua de retorno ao lugar primitivo, e a posi√ß√£o de destaque no anedot√°rio campeiro que ocupa a tapera d√° bem a medida desta realidade. A casa ¬ó o rancho, mesmo o mais pobre, coberto de sap√© ¬ó significa o aconchego e a perspectiva de um lar, ainda que tempor√°rio. N√£o se contradiz, com isso, a id√©ia do ga√ļcho a cavalo, a levar no dorso do animal todos os seus pertences,... Ser arrancado de seu ch√£o, sobretudo quando n√£o o moveu a pr√≥pria vontade, √© o pior mal que adv√©m para o campeiro. √Č este o estigma que pesa constantemente sobre o pe√£o ou posteiro, em especial nos tempos que nos s√£o mais pr√≥ximos.¬Ē
Por uma perversa ironia, a √ļltima e irrevers√≠vel migra√ß√£o, seria a que tem como destino a periferia das grandes cidades, onde enfim, num ambiente totalmente alheio √†quele passado m√≠tico, este ga√ļcho ¬ďlivre¬Ē se ¬ďsedentarizaria¬Ē.
√Č esta mesma migra√ß√£o, associada ao cercamento dos campos e ao desenvolvimento das cidades que far√° o homem da cidade idealizar o campo que n√£o possui mais, num passado que nunca houve, por um esfor√ßo de compensa√ß√£o que ¬ď...forja para todos uma outra imagem de si mesmos. As priva√ß√Ķes de toda ordem s√£o substitu√≠das pelo lombo do cavalo convertido em trono. Os limites e as limita√ß√Ķes cedem lugar √† liberdade e ao campo sem fim.¬Ē
Id√™ntica posi√ß√£o √© defendida pelo historiador D√©cio Freitas, ao comentar a ideologia que procura estabelecer a imagem daquele mundo harm√īnico do passado como ¬ďmito da produ√ß√£o sem trabalho¬Ē:
Inculca-se a vida do ga√ļcho, errando de est√Ęncia em est√Ęncia, em busca de trabalho, como mera vagabundagem, fruto de uma inadapta√ß√£o social. Converte-se a falta de trabalho em horror ao trabalho. Pretende-se que o esp√≠rito de independ√™ncia e liberdade o tornava infenso √† fam√≠lia, quando a verdade √© que n√£o podia sustentar uma fam√≠lia; os estancieiros n√£o queriam saber de pe√£o com mulher e filhos, pois estes, no m√≠nimo, comiam, o que impunha um maior sal√°rio.¬Ē
Provérbios & conselhos
Se, como quer Benjamin, ¬ďo narrador √© um homem que d√° conselhos a seu ouvinte¬Ē , √© mais uma vez Blau Nunes que se apresenta. Encontramos nos Contos Gauchescos um ¬ó que n√£o √© conto cois√≠ssima nenhuma ¬ó intitulado ¬ďArtigos de f√© do ga√ļcho¬Ē, que √© precisamente uma rela√ß√£o de conselhos ou prov√©rbios. Ali o narrador se coloca abertamente na posi√ß√£o de conselheiro, assumindo aquela autoridade de que, segundo Benjamin, ¬ďat√© o mais miser√°vel p√©-de-chinelo disp√Ķe diante dos vivos, na hora de morrer.¬Ē Reproduzimos os par√°grafos introdut√≥rios a estes ¬ďArtigos...¬Ē:
¬ďMuita gente anda no mundo sem saber pra qu√™: vivem, porque v√™em os outros viverem. Alguns aprendem √† sua custa, quase sempre j√° tarde pra um proveito melhor. Eu sou desses. Pra n√£o suceder assim a vanc√™, eu vou ensinar-lhe o que os doutores nunca h√£o de ensinar-lhe, por mais que queimem as pestanas deletreando nos seus livr√Ķes. Vanc√™ note na sua livreta:...¬Ē
Pois o prov√©rbio nada mais √©, para o pensador alem√£o, do que a ¬ďmoral¬Ē de uma hist√≥ria antiga que com o tempo se perdeu. O que n√£o quer dizer que obrigatoriamente cada hist√≥ria possa ser facilmente resumida num prov√©rbio, e depois descartada.
Encontramos nestes prov√©rbios aquele ¬ďinteresse pr√°tico¬Ē que Benjamin atribui a muitos narradores. Mesmo na poesia ¬ó de Virg√≠lio, por exemplo ¬ó podemos encontr√°-lo: ¬ďClara ou oculta, ela [a narrativa verdadeira] carrega consigo sua utilidade. Esta pode consistir ora numa li√ß√£o de moral, ora numa indica√ß√£o pr√°tica, ora num ditado ou norma de vida.¬Ē
Encontramos este prop√≥sito definido nos demais Contos Gauchescos? √Č poss√≠vel, por√©m nunca t√£o evidentes e, por isso mesmo, quem sabe mais eficientes. A julgar pela introdu√ß√£o despretensiosa ao conjunto dos Contos, n√£o √© o prop√≥sito do narrador nada mais que expor suas recorda√ß√Ķes ¬ó expressa na bela met√°fora ¬ď...como quem estende ao sol, para arejar, roupas guardadas ao fundo de uma arca.¬Ē Tamb√©m passa ao largo de manifestos te√≥ricos ou ideol√≥gicos de cunho regionalista, tais como ¬ó quase quarenta anos antes ¬ó o primeiro poeta a escrever um livro inteiramente regionalista julgara importante escrever, no pref√°cio intitulado ¬ďConv√©m ler¬Ē. Parece que o intuito de pintar a paisagem riograndense com seus tipos havia se tornado, a esta altura, conseq√ľ√™ncia natural das discuss√Ķes do s√©culo anterior, especialmente as elaboradas no interior do movimento do ¬ďPartenon¬Ē.
Informação ou sabedoria?
Assim como o cronista medieval n√£o explica a Hist√≥ria, Blau Nunes, n√£o enuncia o conselho ou ¬ďmoral¬Ē de cada causo ¬ó exceto, naturalmente, nos j√° citados ¬ďArtigos¬Ē. Deixa que o leitor tire suas pr√≥prias conclus√Ķes. Assim como a pequena hist√≥ria de Her√≥doto, citada por Benjamim e comentada por Montaigne. Para Benjamin, ¬ďSe a arte de narrar rareou, ent√£o a difus√£o da informa√ß√£o teve nesse acontecimento uma participa√ß√£o decisiva.¬Ē N√£o somente a difus√£o, podemos afirmar, mas a simult√Ęnea sistematiza√ß√£o da informa√ß√£o e do conhecimento em compartimentos perfeitamente definidos e estanques. Prossegue Benjamin:
¬ďCada manh√£ nos informa sobre as novidades do universo. No entanto somos pobres em hist√≥rias not√°veis. Isto ocorre porque n√£o chega at√© n√≥s nenhum fato que j√° n√£o tenha sido impregnado de explica√ß√Ķes. Em outras palavras: quase mais nada do que acontece beneficia a narrativa, tudo reverte em proveito da informa√ß√£o. Com efeito, j√° √© metade da arte de narrar, liberar uma hist√≥ria de explica√ß√Ķes √† medida que ela √© reproduzida.¬Ē
Podemos afirmar que, seja a inten√ß√£o do narrador transmitir uma ¬ďmoral da hist√≥ria¬Ē, seja fixar uma paisagem local ¬ďtal como ela √©¬Ē, conforme a doutrina do naturalismo cient√≠fico, com o m√°ximo de verossimilhan√ßa, tal inten√ß√£o n√£o deve ser francamente explicitada ao n√≠vel do texto, como no caso dos ¬ďArtigos...¬Ē, sob pena de limitar as interpreta√ß√Ķes do ouvinte ou leitor da narrativa, empobrecendo a leitura.
A explicita√ß√£o excessiva √© criticada ¬ó com ressalvas ¬ó por Fl√°vio Loureiro Chaves em outro dos Contos Gauchescos, que tem um car√°ter igualmente ¬ďpedag√≥gico¬Ē. Trata-se de ¬ďBatendo Orelha!...¬Ē:
¬ďTrata-se evidentemente dum texto de sentido moral ou pedag√≥gico no qual Sim√Ķes Lopes Neto pretendeu construir uma f√°bula, retomando o tema que pertence √† tradi√ß√£o de toda literatura ocidental e est√° em conson√Ęncia, ali√°s, com o seu universo imagin√°rio: a coincid√™ncia dos opostos. Mas √© literariamente, um dos seus piores textos e, com certeza, o mais fraco dentre todos os que formam os Contos Gauchescos, justamente por causa do moralismo aparente. No fundo √© o mesmo que percorre toda a obra, que est√° subjacente √† √©tica simoniana e at√© determina certos princ√≠pios da conduta de Blau... N√£o obstante, o texto importa na defini√ß√£o tem√°tica dos Contos Gauchescos, porque a√≠ transparecem alguns elementos cuja identifica√ß√£o se faz mais complexa naquelas passagens onde a express√£o metaf√≥rica instaura uma pluralidade de significados.¬Ē
Lígia Chiappini discorda desta avaliação, afirmando existir neste conto, em vez de esquematismo, uma...
¬ď... experi√™ncia arrojada para a √©poca, de s√≠ntese, de economia, de brevidade, talvez por ser o conto que mais cruelmente, mais instantaneamente, mais secamente, nos remete ao problema que vimos acompanhando desde Lendas do Sul: da moderniza√ß√£o e dos seus efeitos degradantes, para os homens e para os bichos.¬Ē
Chaves acredita ler, ao longo dos Contos Gauchescos um verdadeiro ¬ďsistema √©tico¬Ē que, orientando a conduta de Blau Nunes, f√°-lo emitir opini√Ķes e conselhos ao ouvinte mais jovem, do alto de sua experi√™ncia, da qual uma pequena amostra √© ali relatada. √Č uma vis√£o de mundo algo pessimista. N√£o √© dif√≠cil encontrar exemplos, fora dos pouco felizes e j√° citados ¬ďArtigos..¬Ē e do ¬ďBatendo orelha¬Ē. √Ä moda tradicional da ¬ďmoral¬Ē, ou seja, enunciados no final do conto, como em ¬ďO negro Bonif√°cio¬Ē (¬ďEstancieiras ou peonas, √© tudo a mesma cousa... tudo √© bicho caborteiro...; a mais santinha tem mais mal√≠cia que um sorro velho!...¬Ē ), ¬ďCorrer Eguada¬Ē (¬ď√Č verdade que h√° muita cousa boa, isso √© verdade... mas ainda n√£o h√° nada, como antigamente, tomar mate e correr eguada...¬Ē ) e ¬ďJuca Guerra¬Ē (¬ďUm ga√ļcho de alma n√£o abandona assim o seu cavalo: antes mata-o, como um amigo que n√£o emporcalha o seu amigo!¬Ē ) Ou, de forma invertida, no in√≠cio, como em ¬ďO Boi velho¬Ē: ¬ďCh√™-pucha!.. √© bicho mau, o homem!¬Ē .
Pozenato relaciona esta √©tica do narrador Blau Nunes com aquela √™nfase no fazer do homem, no mundo do trabalho: ¬ď√Č pelo fazer, pelo modo de fazer, que se revelam e se diferenciam os homens uns dos outros. O que eles dizem dever√° ser sempre corroborado pelo que fazem.¬Ē Os personagens por quem Blau Nunes expressa admira√ß√£o s√£o sempre bons em fazer algo, nem que seja brigar: o Juca Picum√£ de ¬ďOs Cabelos da China¬Ē (¬ď...que tinha m√£os de anjo para trabalhos de guasqueiro, desde fazer um sov√©u campeiro at√© o mais fino preparo para um recau de luxo, mestra√ßo, que era, em armar qualquer roseta, bombas, bot√Ķes e tran√ßas de mil feitios.¬Ē ), o ¬ďJuca Guerra¬Ē, o Reduzo de ¬ďMel√Ęncia-Coco Verde¬Ē e mesmo ¬ďO Negro Bonif√°cio¬Ē (¬ď... Se o negro era maleva? Cruz! Era um condenado!... mas, taura, isso era, tamb√©m!¬Ē )
√Č de se perguntar, afinal, se a inutilidade progressivamente crescente do conselho ¬ó e conseq√ľentemente da narrativa ¬ó como fonte de transmiss√£o de sabedoria n√£o decorre da progressiva sistematiza√ß√£o do conhecimento, que hoje se quer totalmente ¬ďarmazenado¬Ē nos livros, ali√°s j√° previs√≠vel desde a separa√ß√£o estabelecida pelos gregos entre doxa, a opini√£o, e episteme, o conhecimento.
√Č espantoso verificar neste texto dos anos trinta, mais uma vez, a atualidade quase prof√©tica de Benjamin, ao constatar o decl√≠nio da import√Ęncia da experi√™ncia direta como fonte de sabedoria: ¬ď... a experi√™ncia caiu na cota√ß√£o. E a impress√£o √© de que prosseguir√° na queda intermin√°vel.¬Ē Pois que import√Ęncia damos hoje √†s hist√≥rias que possam contar os mais velhos? Que necessidade podemos ter dessa transmiss√£o de experi√™ncia, j√° que toda a informa√ß√£o encontra-se nos jornais e livros, classificada sob a forma dos v√°rios ramos da ci√™ncia? Ser√° este um dos motivos da crescente marginaliza√ß√£o em que se encontram os velhos na sociedade? N√£o ser√° frustrante ter muitas hist√≥rias para contar e nenhum p√ļblico?
Blau Nunes, o narrador-personagem dos Contos Gauchescos de Jo√£o Sim√Ķes Lopes Neto, que teve a fortuna de nascer em outros tempos, ainda teve seu p√ļblico atento, ao que parece. Aos oitenta e oito anos, quase nada tem de seu, mas tem o que contar. A experi√™ncia √© sua riqueza. E tudo o que conta, viveu. Na leitura do texto temos obrigatoriamente a sensa√ß√£o de o estar ouvindo, e quase temos vontade de intervir com alguma pergunta:
¬ó Mas foi mesmo assim, seu Blau?
Trabalho, tédio & atenção
√Č interessante observarmos como o tempo encarregou-se de complicar uma afirma√ß√£o de Benjamin sobre o estado de esp√≠rito mais favor√°vel √† audi√ß√£o de uma hist√≥ria, e mesmo √† sua narra√ß√£o, num ambiente de trabalho manual mon√≥tono:
¬ďSe o sono √© o ponto culminante do relaxamento f√≠sico, ent√£o o t√©dio o √© da distens√£o espiritual. O t√©dio √© o p√°ssaro on√≠rico que choca o ovo da experi√™ncia... Seus ninhos... j√° morreram nas cidades, mas tamb√©m no campo est√£o em ru√≠nas.¬Ē
Tomemos o ambiente mais ou menos familiar em que podemos facilmente imaginar Blau Nunes contando suas aventuras: o galp√£o. Havia t√©dio ali, n√£o h√° d√ļvida. Era noite, ou fazia mau tempo, e os homens n√£o encontravam muitas maneiras de passar o tempo, entre o churrasco, o mate, o palheiro, a canha e a conversa fiada. √Č evidente tamb√©m que este ambiente prop√≠cio n√£o existe mais, tal como nos prim√≥rdios do s√©culo XX, enquanto Sim√Ķes Lopes escreve seus Contos Gauchescos. Mas h√° outros. Na cidade e no campo, h√° in√ļmeros ambientes prop√≠cios, mas todos ligados ao √≥cio, n√£o ao trabalho. Porque o t√©dio s√≥ parece ter aumentado nas cidades, e n√£o desaparecido, como supunha o cr√≠tico. N√£o podemos imaginar nada mais tedioso que o trabalho dos operadores de todo o tipo de m√°quinas modernas, por exemplo. Nada mais tedioso, e no entanto, como poder√° ele ouvir uma hist√≥ria? N√£o h√° tempo. As considera√ß√Ķes pessimistas de Paul Val√©ry, citadas por Benjamin, sobre este fato, s√≥ fizeram se acentuar at√© os anos noventa: ¬ď... acabou o tempo em que o tempo n√£o vinha ao caso. O homem de hoje n√£o trabalha mais no que n√£o pode ser abreviado.¬Ē Benjamin cita como um dos sinais desta transforma√ß√£o a inven√ß√£o bem sucedida da short story. Podemos acrescentar a descoberta e a crescente popularidade do Haikai no Ocidente.
As observa√ß√Ķes de Benjamim sobre os ambientes tediosos do trabalho manual, onde as m√£os ocupadas n√£o perturbavam a aten√ß√£o da mente, est√£o relacionadas √† sua preocupa√ß√£o com a perpetua√ß√£o da narrativa oral, atrav√©s da √ļnica maneira poss√≠vel, isto √©, a reten√ß√£o pela mem√≥ria do ouvinte:
¬ďQuanto mais esquecido de si mesmo est√° quem escuta tanto mais fundo se grava nele a coisa escutada... A rela√ß√£o ing√™nua entre ouvinte e narrador √© dominada pelo interesse em reter a coisa narrada... O ponto chave para o ouvinte desarmado √© garantir a possibilidade da reprodu√ß√£o¬Ē
A primeira destas frases pode, no que diz respeito √† memoriza√ß√£o involunt√°ria, aplicar-se-ia hoje perfeitamente √† efici√™ncia da publicidade, e mesmo ao papel dos meios de comunica√ß√£o de massa como modeladores de comportamentos. Nas palavras de Ant√īnio C√Ęndido:
¬ďEm nosso tempo, uma catequese √†s avessas converte rapidamente o homem rural √† sociedade urbana, por meio de recursos comunicativos que v√£o at√© a inculca√ß√£o subliminar, impondo-lhe valores duvidosos e bem diferentes dos que o homem culto busca na arte e na literatura¬Ē.
Afora isto, não nos parece que algum ouvinte dos anos noventa vá sequer preocupar-se em reter qualquer coisa na sua memória para perpetuá-la, pois isto não é absolutamente necessário numa sociedade que tem à sua disposição tanta memória quanto necessite para registrar tudo em jornais, livros, filmes, discos, fitas e bytes. A não ser que o ouvinte pretenda ser, por sua vez, um narrador.
Narrador que seria de grande import√Ęncia na conserva√ß√£o de uma tradi√ß√£o popular verdadeira, que pudesse aconselhar os ex-trabalhadores rurais que, migrando para a periferia das cidades, ficam a merc√™ dessa ¬ďesp√©cie de folclore urbano que √© a cultura massificada¬Ē . O ir√īnico √© que, no caso espec√≠fico do Rio Grande do Sul, a cultura de massa se apropria do folclore de origem rural, ¬ďnativista¬Ē ou ¬ďgauchesco¬Ē, fazendo dele mais uma mercadoria, com a desvantagem (ou ¬ďdiferencial mercadol√≥gico¬Ē) de carregar consigo um falso status de legitimidade.


00/00/1996

 

 


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