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Álvaro Santi - Músico - Escritor - Porto Alegre/RS

Prosa

Imagens da metrópole na poesia dos anos 20: Mário de Andrade e Jorge Luís Borges (ensaio, 1998)

√Ālvaro Santi

Resumo: O artigo analisa comparativamente os primeiros livros de poemas, publicados na década de vinte, de dois importantes escritores latino-americanos — Paulicéia Desvairada, de Mário de Andrade, e Fervor de Buenos Aires, de Jorge Luís Borges — particularmente com o objetivo de ver como estão ali retratadas ou imaginadas as metrópoles que lhes servem de inspiração: São Paulo e Buenos Aires.
Palavras-chave: Poesia; Mário de Andrade; Jorge Luís Borges; Cidades; Literatura latino-americana; Modernismo brasileiro; Ultraísmo argentino; Literatura Comparada.

Abstract: The article analyzes comparatively the two first volumes of poetry, published both in the 1920’s, of two important Latin-American writers — Mário de Andrade’s Paulicéia Desvairada and Jorge Luis Borges’ Fervor de Buenos Aires — particularly to verify how are described or imaginated, in the poems, the metropolis in which they were inspired: São Paulo and Buenos Aires.
Key words: Poetry; M√°rio de Andrade; Jorge Luis Borges; cities; Latin-American Literature; Brazilian Modernism; Argentinian Ultraism.

"Partindo dali e caminhando por tr√™s dias em dire√ß√£o ao levante, encontra-se Diomira, cidade com sessenta c√ļpulas de prata, est√°tuas de bronze de todos os deuses, ruas lajeadas de estanho, um teatro de cristal, um galo de ouro que canta todas as manh√£s no alto de uma torre. Todas essas belezas o viajante j√° conhece por t√™-las visto em outras cidades. Mas a peculiaridade desta √© que quem chega numa noite de setembro, quando os dias se tornam mais curtos e as l√Ęmpadas multicoloridas se acendem juntas nas portas das tabernas, e de um terra√ßo ouve-se a voz de uma mulher que grita: uh!, √© levado a invejar aqueles que imaginam ter vivido uma noite igual a esta e que na ocasi√£o se sentiram felizes." (√ćtalo Calvino, ¬ďAs Cidades Invis√≠veis¬Ē)

Dizer que a cidade tem especial import√Ęncia na vida ¬ó e, por extens√£o, na literatura ¬ó de uma na√ß√£o ou da humanidade inteira n√£o √©, por certo, nenhuma novidade. A cidade foi freq√ľentemente, desde a Antig√ľidade, sin√īnimo de Estado, na verdade o √ļnico lugar que poderia oferecer ao ser humano um m√≠nimo de seguran√ßa contra o invasor e a intemp√©rie. Este car√°ter tem condicionado sua hist√≥ria, sua localiza√ß√£o, seu crescimento, suas mem√≥rias, sua destrui√ß√£o.
Encontram-se na B√≠blia in√ļmeros casos de cidades que se tornaram c√©lebres, adquirindo significa√ß√£o simb√≥lica muito ampla: Jeric√≥, Jerusal√©m, Sodoma e Gomorra... Homero canta, na Il√≠ada, a guerra por uma cidade, hoje igualmente famosa: Tr√≥ia. Plat√£o, em outro g√™nero, trata n√£o de uma cidade real, mas de uma idealizada para ser perfeita o quanto poss√≠vel. Em tempos menos distantes, dificilmente podemos imaginar o que seriam as obras de grandes escritores sem as cidades que lhes servem de cen√°rio ¬ó e, √†s vezes, quase de personagem: Dublin para Joyce, Londres para Dickens, Berlim para Walter Benjamin, Praga para Kafka, o Rio para Machado de Assis, Paris para uma multid√£o de escritores... Se nos apartamos por um momento do √Ęmbito liter√°rio, o cinema nos d√° recentes provas de vitalidade das cidades que povoam a imagina√ß√£o dos criadores. √Č suficiente citar New York, para Woody Allen; ou Roma, para Fellini.
O que de pronto se percebe √© que, mais do que a cidade, esta velha conhecida da humanidade, nos tempos atuais o que busca penetrar a literatura √© o que h√° de novo: a metr√≥pole, a cidade ca√≥tica, ruidosa, incomensur√°vel, labir√≠ntica. Esta tend√™ncia acentua-se, como √© de se esperar, √† medida que as cidades crescem, principalmente na Europa, como conseq√ľ√™ncia da Revolu√ß√£o Industrial do s√©culo XIX.
Para as metrópoles latino-americanas que nos interessam nesta análise, São Paulo e Buenos Aires, é só no princípio deste século que finalmente elas surgem como tais em nossa literatura. Para o que temos em vista, tomamo-las tais como estão representadas, com evidente apreço, nas primeiras obras de Mário de Andrade (1893-1945) e Jorge Luis Borges (1899-1986), respectivamente.
A natureza e os objetos mais espec√≠ficos deste apre√ßo s√£o todavia distintos para cada um destes escritores. Enquanto Paulic√©ia Desvairada (1922), primeiro livro de poemas de M√°rio de Andrade, √© uma celebra√ß√£o ¬ó ainda que contenha sua parcela de cr√≠tica ¬ó do ru√≠do, da multiplicidade, do cosmopolitismo, das inven√ß√Ķes modernas que rec√©m come√ßam a integrar o cotidiano da cidade; e uma apropria√ß√£o desses novos elementos pela poesia:

O DOMADOR

Alturas da Avenida. Bonde 3.
Asfaltos. Vastos, altos repuxos de poeira
Sob o arlequinal do céu ouro-rosa-verde...
As sujidades implexas do urbanismo. (...) (1987, p. 92)

... em Fervor de Buenos Aires (1923), Borges volta sua atenção para o arrabalde, e as costas ao centro e ao porto, onde não param de desembarcar os imigrantes e todas as novidades do mundo:

LAS CALLES

Las calles de Buenos Aires
ya son la entra√Īa de mi alma.
No las calles enérgicas
molestadas de prisas y ajetreos,
sino la dulce calle de arrabal
enternecida de √°rboles y ocasos
y aquellas m√°s afuera
ajenas de piadosos arbolados
donde austeras casitas apenas se aventuran
hostilizadas por inmortales distancias
a entrometerse en la honda visión
hecha de gran llanura y mayor cielo. (...) (1923, s.p.)

Duas raz√Ķes simples podem explicar atitudes t√£o antag√īnicas frente ao mesmo fen√īmeno. Primeiro, as diferentes dimens√Ķes que apresentam as duas cidades, nos anos vinte, fato de que tem consci√™ncia M√°rio, quando analisa algumas manifesta√ß√Ķes das distintas nacionalidades americanas, no artigo Literatura Modernista Argentina: "A Argentina realizou um progresso material e intelectual un√Ęnime e bem grande (...) Quando l√° falam que a Argentina √© um grande pa√≠s e Buenos Aires uma grande capital, falam duas verdades incontest√°veis." (Apud Antelo, 1986, p. 167)
M√°rio n√£o escreve, mas fica evidente que, para ele, a despeito de ser extenso, o Brasil ainda n√£o pode ser considerado grande, em muitos sentidos. E sua cidade, evidentemente, segue sendo fisicamente menor que Buenos Aires. O processo de transforma√ß√£o desta √ļltima, por estar mais adiantado, √© visto por seus cidad√£os com mais naturalidade, n√£o lhes atraindo tanto a aten√ß√£o.
Esta diferença é reforçada por distintos traços biográficos dos escritores (a segunda razão), como percebeu claramente Emir Rodríguez Monegal, primeiro crítico a ensaiar uma comparação entre os dois: "Enquanto Mário legou o perfil de um homem culto que, sistematicamente se negou a sair da terra, (...) Borges fixou a imagem de um cosmopolita cuja circunferência é o mundo inteiro e cujo centro está em nenhuma parte." (1978, p. 9-10)
Para essa imagem de Borges, seguramente ter√£o contribuido mais os seus contos, cuja a√ß√£o se passa em muitos pa√≠ses ¬ó deste mundo e de outros ¬ó que sua primeira obra po√©tica, menos conhecida do p√ļblico, e reconhecida por ele pr√≥prio como menos importante no conjunto de sua obra.
Por outro lado, os anos que Borges viveu na Europa, para onde foi muito jovem, retornando aos vinte e dois, visivelmente amadureceram uma nostalgia daquela Buenos Aires de sua inf√Ęncia, pouco vivida mas por certo muito imaginada, √† dist√Ęncia. Se a inf√Ęncia estava j√° perdida ao retornar, em 1921, a cidade de outrora ele a encontrou exatamente no arrabalde. √Č o que se pode ler no poema...

LA VUELTA

Despu√©s de muchos a√Īos de ausencia
busqué la casa primordial de la infancia
y a√ļn persevera forastero su √°mbito.
Mis manos han tanteado los √°rboles
como quien besa a un durmiente
y he copiado andanzas de anta√Īo
como quien practica un verso olvidado (...) (1923, s.p.)

E em seu segundo livro de ensaios El tama√Īo de mi esperanza, publicado tr√™s anos mais tarde:
Yo soy un hombre que se aventur√≥ a escribir y aun a publicar unos versos que hac√≠an memoria de dos barrios de esta ciudad que estaban entreverad√≠simos con su vida, porque en uno de ellos fue su ni√Īez y en el otro goz√≥ y padeci√≥ un amor que quiz√° fue grande. (1995, p. 127)
Beatriz Sarlo observou com agudeza que o escritor argentino volta sua aten√ß√£o para o bairro ¬ďaunque el barrio mismo haya sido un producto de la modernizaci√≥n urbana¬Ē (In Belluzzo, 1990, p. 39). Borges caminha para o arrabalde, fugindo do progresso, da imigra√ß√£o, do ru√≠do, do cosmopolitismo que destr√≥i sua cidade. O brasileiro Marques Rebelo (1907-1981) ter√° mais tarde, em rela√ß√£o √† cidade do Rio de Janeiro, uma atitude semelhante, denunciando uma ¬ďf√ļria urban√≠stica¬Ē que n√£o respeita nada.
O desejo intenso de imortalizar uma cidade que j√° n√£o √© mais que uma lembran√ßa √© not√°vel quando observamos alguns termos que Borges emprega insistentemente nos poemas de Fervor de Buenos Aires: eternas, inmortales, universal, excelsitud, persistir, inm√≥vil, recuperada heredad, eternamente, realidad innegable, alta serenidad, inmutablemente, perseveraremos, inmensidad, temblorosa inmortalidad, perdurar√≠an, universo, tiempo, siglos, milenio... √Č como se com as palavras procurasse deter a marcha do tempo, ou inventar um bairro fora da hist√≥ria, um bairro m√≠tico.
Fervor de Buenos Aires, como muitos outros livros, pode ser enquadrado numa tradi√ß√£o, esbo√ßada por √Āngel Rama, de obras que se empenha em recuperar uma vaga ¬ďciudad que fue antes de la mutaci√≥n¬Ē. Enquanto que Paulic√©ia Desvairada estaria, no p√≥lo dial√©tico oposto, totalmente comprometido com a cidade do futuro:
"A constru√ß√£o da cidade futura n√£o foi menos obra do desejo e da imagina√ß√£o, n√£o foi menos resposta ao movimento desintegrador do s√≥lido cen√°rio dos homens, que a constru√ß√£o da cidade passada, salvo que esta p√īde ser engalanada com o discurso veross√≠mil do realismo decimon√īnico. Pelo que √© imprudente utilizar como refer√™ncias hist√≥ricas rigorosas as que aparecem na multid√£o de livros sobre Buenos Aires, Montevid√©u, Santiago, M√©xico ou Rio de Janeiro antigos, que preencheram a √©poca. Mais adequado √© l√™-los como a parcimoniosa edifica√ß√£o de modelos culturais que quer estabelecer uma nova √©poca, respondendo ao estranhamento em que vivem os cidad√£os." (1985, p. 99-100)
J√° que falamos de ¬ďcidade futura¬Ē, √© importante chamar a aten√ß√£o para a conhecida influ√™ncia do futurismo italiano sobre as vanguardas latino-americanas, mais percept√≠vel nos poemas do brasileiro que nos de Borges. Na d√©cada seguinte √† que focalizamos, o urbanista Lewis Mumford ter√° palavras √°cidas para descrever a fun√ß√£o de escritores e jornalistas na constru√ß√£o daquilo que chama ¬ďa cidade dos sonhos de papel¬Ē, no cl√°ssico The culture of Cities. Para ele, tratava-se ent√£o de engalanar o presente, com a dose de ideologia que permita ao homem sobreviver, ou mais, achar-se feliz, num ambiente cinzento, sujo, ruidoso, apertado e sem horizontes: "When one examines the state of the metropolis one discovers a curious hallucination: the notion that its size, power, mechanical equipment and richess have effected a corresponding improvement in the life of its inhabitants. What is the mechanism of this error? We shall find it in the pseudo-environment of paper." (1938, p. 255)
N√£o √© por acaso que este livro, que tamb√©m denuncia a manipula√ß√£o f√°cil dos jornais por governos ditatoriais, foi publicado √†s v√©speras da Segunda Grande Guerra, assim como n√£o √© por acaso que o fato de apoiar o regime fascista italiano acabou representando o desmascaramento de muita ¬ďvanguarda¬Ē futurista, e a posterior nega√ß√£o veemente de suas id√©ias e influ√™ncias pela maior parte dos modernistas brasileiros. A import√Ęncia que Hitler atribuiu √† cidade de Berlim, fazendo dela sede de magn√≠ficas obras arquitet√īnicas destinadas a eternizar o Terceiro Reich, transformou-a em verdadeiro s√≠mbolo do nazismo, o que provavelmente contribuiu n√£o apenas para sua destrui√ß√£o durante a guerra, mas ainda fez dela praticamente uma cidade sitiada por d√©cadas ap√≥s o fim do conflito.
Se dermos crédito ao que diz o próprio Borges, no prefácio do livro em questão, o que de fato interessa não é a cidade que já foi, menos ainda a que existe, mas sua alma, que é imutável, e não tem propriamente um tempo e espaço determinados.
"Empiezo declarando que mis poemas, pese al f√°cil equ√≠voco, que es motivable por su nombre, no son ni se abatieron en instante alguno a ser un aprovechamiento de las diversidades numerosas de √°mbitos y parajes que hay en la patria. Mi patria ¬ó Buenos Aires ¬ó no es el dilatado mito geogr√°fico que esas dos palabras se√Īalan: es mi casa, los barrios amigables, y juntamente con esas calles y retiros, que son querida devoci√≥n de mi tiempo, lo que en ellas supe de amor, de pena y de dudas." (1923, s.p.)
Do ponto de vista estritamente biogr√°fico, n√£o resta d√ļvida: para quem viveu parte de sua juventude em cidades como Genebra e Madri, n√£o √© o incipiente car√°ter cosmopolita de uma cidade latino-americana ¬ó mesmo a maior delas ¬ó que ir√° provocar atra√ß√£o irresist√≠vel ou o deslumbramento que confessam tantos poemas de M√°rio de Andrade, paulistano que por op√ß√£o n√£o quis conhecer a Europa:

ROND√ď DO TEMPO PRESENTE

(...) Deslumbrados com o jazz dos automóveis.
Os cadetes mexicanos marcham que nem cavalos ensinados,
Est√° repleto o music-hall!
Mulheres-da-vida perfiladas nas frizas.
— Olhar à direita!
— Olhar à esquerda!
Tarat√°! (...) (p. 156)

Este tarat√°! √© um ru√≠do emblem√°tico da cidade de M√°rio, em permanente ebuli√ß√£o, como se diariamente houvesse uma parada militar, uma festa de carnaval. Por sinal que o mais extenso de seus poemas publicados at√© 1923 se chama precisamente Carnaval. Dedicado ao amigo e poeta carioca Manuel Bandeira (1886-1968), descreve um fen√īmeno, em certa medida, t√≠pico do Rio de Janeiro. A ¬ďcidade de papel¬Ē, por√©m, √© mesma. Assim termina:

(...) Lhe embala o sono
A barulhada matinal de Guanabara...
Sinos buzinas clacsons campainhas
Apitos de oficinas
Motores bondes preg√Ķes no ar,
Carro√ßas na rua, transatl√Ęnticos no mar...
√Č a cantiga-de-ber√ßo.
E o poeta dorme.

O poeta dorme sem necessidade de sonhar. (p. 173)
No que diz respeito à técnica, Borges, além de se distanciar do centro de Buenos Aires, ainda evita, no arrabalde, a pura descrição, o recurso pictórico ou musical. A evocação da paisagem está sempre a serviço de uma idéia, de uma metáfora. Em suas palavras:
"Entiendo que tales intenciones sonar√°n forasteras a esta √©poca, cuya l√≠rica suele desleirse en casi-m√ļsicas de ritmo o rebajarse a pila de baratijas vistosas... C√≥mo no malquerer a ese escritor que reza atropelladamente palabras sin paladear el escondido asombro que albergan, y a ese otro que, abrillantador de endebleces, abarrota su escritura de oro y de joyas, abatiendo con tanta luminaria nuestros pobres versos opacos, s√≥lo alumbrados por el resplendor indigente de los ocasos de suburbio. A la l√≠rica decorativamente visual y lustrosa... quise oponer otra, meditabunda, hecha de aventuras espirituales (...)" (1923, s.p.)
A julgar por este pref√°cio, seguramente Borges n√£o teria apreciado muitos dos poemas que M√°rio de Andrade escrevia ent√£o.
N√£o se pode negar, entretanto, que os poemas de Paulic√©ia Desvairada ilustram, melhor que os de Borges, aquele ¬ďtipo metropolitano de individualidade¬Ē (sendo, neste sentido, mais ¬ďmodernos¬Ē), cuja base psicol√≥gica, segundo afirmava em 1902 Georg Simmel, em um texto fundante da Sociologia Urbana:
(...) "consiste na intensifica√ß√£o dos est√≠mulos nervosos, que resulta da alterna√ß√£o brusca e ininterrupta entre est√≠mulos exteriores e interiores (...) Com cada atravessar de rua, com o ritmo e a multiplicidade da vida econ√īmica, ocupacional e social, a cidade faz um contraste profundo com a vida de cidade pequena e a vida rural no que se refere aos fundamentos sensoriais da vida ps√≠quica." (In Velho, 1967, p. 14)
Uma semelhan√ßa, afinal: a liberdade formal. Em ambos os livros o verso livre reina absoluto, e sem preocupa√ß√£o com estrofes. Esta tend√™ncia atenua-se nos livros posteriores de ambos os escritores, em especial os de Borges. Luna de Enfrente (1925) e Cuaderno San Martin (1929) apresentam j√° a procura de um tipo muito pessoal de organiza√ß√£o formal, em est√°gios que v√£o desde a singela repeti√ß√£o de palavras (nos poemas ¬ďAl horizonte de un suburbio¬Ē, ¬ďLa promision en alta mar¬Ē); passando por alguns versos de extens√£o mais ou menos igual, √†s vezes organizados em quadras (¬ďEl General Quiroga va en coche al muere¬Ē, ¬ďManuscrito hallado en un libro de Joseph Conrad¬Ē, ¬ďFundaci√≥n M√≠tica de Buenos Aires¬Ē); at√© muitos de seus poemas mais recentes, onde ¬ó em parte por efeito da crescente cegueira que o afetava ¬ó admite com mais freq√ľ√™ncia a rima e o metro regular.
J√° M√°rio, se alguma vez concede usar metro e rima, √© para fazer par√≥dia (como no √ļltimo e mais extenso poema de Paulic√©ia, ¬ďAs Enfibraturas do Ipiranga¬Ē); ou √© quando se apropria de formas populares ¬ďcl√°ssicas¬Ē aprendidas em suas pesquisas sobre folclore (em muitos poemas de Cl√£ do Jabuti, por exemplo).
J√° no manejo do idioma se distanciam outra vez os escritores que comparamos. A diferen√ßa parece estar sempre na atitude de aceita√ß√£o ou recusa frente ao novo, ao que diariamente lhes apresenta a cidade cambiante. Simplificando demais, dir√≠amos: uma atitude liberal ou conservadora. M√°rio, ¬ďliberal¬Ē, abre as portas de sua poesia a express√Ķes estrangeiras j√° correntes entre a popula√ß√£o paulistana: inglesas, italianas, alem√£s, francesas...

RUA DE SÃO BENTO

(...) ¬ď Can you dance the tarantella?¬Ē ¬ó ¬ďAch! ja.¬Ē

São as califórnias duma vida milionária
numa cidade arlequinal...

O Clube Comercial... A Padaria Espiritual...
Mas a desilus√£o dos sombrais amorosos
p√Ķe majoration temporaire, 100%!...

Minha Loucura, acalma-te!
Veste o water-proof dos tambens! (...) (p. 85)

Se o r√≥tulo de ¬ďconservador¬Ē cabe a Borges por cultivar um purismo defensivo do idioma contra os ¬ďestrangeirismos¬Ē, e por ser contr√°rio tamb√©m √† literariza√ß√£o de um idioma inculto (por exemplo o ¬ďarrabalero¬Ē; ou o ¬ďlunfardo¬Ē, utilizado mais tarde por Roberto Arlt) √© porque sabe que j√° disp√Ķe de um ¬ďidioma de los argentinos¬Ē , distinto do espanhol e potencialmente t√£o rico e ¬ďliter√°rio¬Ē quanto ele.
O desprezo de Borges por uma atitude de puro deslumbramento ante o ¬ďnovo¬Ē tem ra√≠zes mais profundas. Procura uma leitura original sobre a cidade. √Č revelador, neste sentido, seu ensaio sobre o poeta entrerriano Evaristo Carriego (1883-1912). Publicado originalmente em 1930, este livro, enquanto cria um poeta ¬ďmitol√≥gico¬Ē - que pode ser lido como alter ego do autor - habitante do bairro Palermo e, por extens√£o, de todos os bairros; ao mesmo tempo prega uma invers√£o, a seu gosto: quer que o centro das aten√ß√Ķes seja o bairro.
"Creo que [Carriego] fué el primer espectador de nuestros barrios pobres y que para la historia de nuestra poesía, eso importa." (1930, p. 99)
Borges segue o caminho de Carriego. Neste Borges, que n√£o deixa de descrever os efeitos do progresso no bairro de Palermo, em 1912, √© poss√≠vel perceber a preocupa√ß√£o social, cuja aus√™ncia a cr√≠tica ¬ďde esquerda¬Ē freq√ľentemente tem reprovado em obras posteriores, e que aponta na dire√ß√£o do que Beatriz Sarlo chamou de ¬ďcriollismo urbano de vanguardia¬Ē (Apud Alcal√° & Schwartz, 1992, p. 14). O que confunde os cr√≠ticos desavisados √© que o escritor argentino, como mestre que √©, supera facilmente as dicotomias novo-velho, progresso-atraso, esquerda-direita, campo-cidade:
"La irrealidad de las orillas es más sutil: deriva de su provisorio carácter, de la dobre gravitación de la llanura chacarera o ecuestre y de la calle de altos, de la propensión de sus hombres a considerarse del campo o de la ciudad, jamás orilleros. Carriego, en esa materia indecisa, pudo trabajar su obra." (1930, p. 90)
E Borges também, acrescentamos.
E j√° que espiamos a biografia dos poetas, em busca de elementos que explicassem posi√ß√Ķes t√£o radicalmente contradit√≥rias diante das metr√≥poles que cantaram, parece natural que fa√ßamos uma incurs√£o pela ¬ďbiografia¬Ē das cidades mesmas. Pois supomos haver alguma similaridade entre a atitude dos escritores e a de suas respectivas cidades, frente aos processos de intensa industrializa√ß√£o e imigra√ß√£o que ocorreram desde as √ļltimas d√©cadas do s√©culo XIX, que possa remontar √†s diferentes condi√ß√Ķes que lhes deram ¬ó √†s cidades ¬ó origem, √† √©poca colonial.
A funda√ß√£o de centros urbanos na Am√©rica hisp√Ęnica, por exemplo, obedeceu sempre a um r√≠gido sistema de leis e princ√≠pios norteadores, vis√≠vel ainda hoje em seu tra√ßado geom√©trico regular ou na sua localiza√ß√£o, que as distingue das europ√©ias, e que, segundo o historiador e cr√≠tico liter√°rio S√©rgio Buarque de Holanda,...
(...) denuncia o esfor√ßo determinado de vencer e retificar a fantasia caprichosa da paisagem agreste: √© um ato definido da vontade humana (...) As ruas n√£o se deixam modelar pela sinuosidade e pelas asperezas do solo; imp√Ķem-se-lhes antes o acento volunt√°rio da linha reta(...) O tra√ßo retil√≠neo, em que se exprime a dire√ß√£o da vontade a um fim previsto e eleito, manifesta bem essa delibera√ß√£o. E n√£o √© por acaso que ele impera decididamente em todas essas cidades espanholas, as primeiras cidades ¬ďabstratas¬Ē que edificaram europeus em nosso continente. (1995, p. 96)
Não se planeja uma cidade assim, nos mínimos detalhes, impunemente. Isto é, sem deixar marcada uma forte tendência para rechaçar todo elemento estranho, que possa representar ameaça ao perfeito funcionamento da cidade-sistema.
Vejamos como o mesmo estudioso descreve o processo de urbaniza√ß√£o t√≠pico da col√īnia portuguesa:
"A rotina, e não a razão abstrata foi o princípio que norteou os portugueses... Preferiam agir por experiências sucessivas, nem sempre coordenadas umas às outras, a traçar de antemão um plano para segui-lo até o fim... A cidade que os portugueses construíram na América não é produto mental, não chega a contradizer o quadro da natureza, e sua silhueta se enlaça na linha da paisagem. Nenhum rigor, nenhum método, nenhuma previdência" (...) (1995, p. 109-10)
Se a natureza exuberante foi t√£o importante para a afirma√ß√£o da nacionalidade dos rom√Ęnticos brasileiros , no Modernismo esta cidade luso-brasileira tamb√©m n√£o chega a contradiz√™-la: simplesmente a substitui. Em Paulic√©ia Desvairada, a cidade de S√£o Paulo √© t√£o onipresente e ¬ďnacional¬Ē quanto a natureza o foi no s√©culo passado, no sentido de que sua tematiza√ß√£o supre, para o poeta M√°rio de Andrade, a necessidade de ser e mostrar-se brasileiro t√£o completamente quanto, para Castro Alves, a descri√ß√£o da paisagem exuberante em A Cachoeira de Paulo Afonso. Todavia na poesia de M√°rio, como na de Borges, a natureza n√£o desaparece completamente; seus elementos misturam-se aos da civiliza√ß√£o, para tecer o poema:

INSPIRAÇÃO

São Paulo! comoção de minha vida...
Os meus amores s√£o flores feitas de original!...
Arlequinal!... Trajes de losangos... Cinza e ouro...
Luz e bruma... Forno e inverno morno...
Eleg√Ęncias sutis sem esc√Ęndalos, sem ci√ļmes...
Perfumes de Paris... Arys!
Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!...

São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América. (p. 83)

Neste sentido, segundo √Āngel Rama, nos anos vinte, a metr√≥pole argentina estaria mais adiantada ¬ó e seus escritores tamb√©m, por conseguinte ¬ó naquele processo de...
(...) "extinção da Natureza e das culturas rurais, projeto inicial dominador que, pela primeira vez de modo militante, as cidades modernizadas levaram a cabo, buscando integrar o território nacional sob a norma culta da capital." (1985, p. 87)
... que, no Brasil, terá no Estado Novo sua expressão política mais acabada, na década seguinte.
√Č interessante aqui lembrar o duplo sentido do termo ¬ďmetr√≥pole¬Ē, que n√£o apenas √© a cidade grande, centro do poder local, mas tamb√©m a ¬ďcidade-m√£e¬Ē, modelo mesmo de cidade importado de al√©m-mar (Paris ou Nova Iorque); oposto de ¬ďcol√īnia¬Ē.
A prop√≥sito, Emir Rodr√≠guez Monegal percebe que Borges realmente evitava mais que tudo conformar-se √† imagem do escritor latino-americano ex√≥tico nativista ou regionalista do s√©culo passado. Esta originalidade, al√©m de custar-lhe a acusa√ß√£o de ¬ďbizantinismo¬Ē, ou de n√£o ser suficientemente latino-americano, teria retardado seu reconhecimento tamb√©m na Europa. E encontrado, no ambiente metropolitano de Buenos Aires, as condi√ß√Ķes sine qua non para o surgimento da literatura borgiana:
"Onde, sen√£o nessa Babel que √© Buenos Aires, poderia haver se encontrado um leitor das literaturas germ√Ęnicas primitivas que fosse ao mesmo tempo um conhecedor do tango e da poesia gauchesca, de Dante e de Cervantes, de Hume, De Quincey e Schopenhauer? O cosmopolitismo de Borges n√£o √© sen√£o reflexo, no dom√≠nio liter√°rio, do cosmopolitismo de Buenos Aires, que Dar√≠o j√° havia cantado em 1896." (1987, p. 17)
N√£o foi nossa inten√ß√£o, neste breve ensaio, empreender uma compara√ß√£o ampla e sistem√°tica entre dois escritores t√£o complexos e originais como M√°rio de Andrade e Jorge Lu√≠s Borges, sobre os quais se tem escrito tanto. Destacamos um aspecto particular, por√©m marcante de seus primeiros passos na poesia. Passos que percorreram as cal√ßadas das maiores cidades da Am√©rica Latina: ¬ďlas calles en√©rgicas molestadas de prisas y ajetreos¬Ē ou ¬ďla dulce calle de arrabal enternecida de √°rboles y ocasos¬Ē. Neste caminho, foram recolhendo todo tipo de imagens: novas ou velhas, cotidianas ou raras, cheias de beleza ou fei√ļra, universais ou t√≠picas. Os poetas procuraram construir suas cidades imortais com silenciosas intimidades ou agitadas multid√Ķes, terminando por habit√°-las, imortalizados eles pr√≥prios nas ruas de suas cidades, como nas p√°ginas de seus livros.
Tampouco seria poss√≠vel esgotar neste espa√ßo o tema da representa√ß√£o das cidades na literatura latino-americana. Bem oportuno seria um estudo panor√Ęmico que tra√ßasse a evolu√ß√£o dessas representa√ß√Ķes desde a √©poca colonial at√© os dias de hoje, atrav√©s da obra dos muitos escritores que deram sua contribui√ß√£o √† constru√ß√£o dessa cidade imagin√°ria, seja ela a opressiva ¬ďcidade dos sonhos de papel¬Ē (Mumford), a ¬ďcidade das letras¬Ē (Rama), a ¬ďcidade invis√≠vel¬Ē (Calvino, que ao menos de nascimento, √© latino-americano), a cidade dos ¬ďm√ļltiplos est√≠mulos sensoriais¬Ē (Simmel), a cidades colonial ¬ďorg√Ęnica¬Ē portuguesa e a ¬ďracional¬Ē hisp√Ęnica (Holanda), ou tantas outras... Perseguindo esta tradi√ß√£o poderemos talvez chegar a encontrar representa√ß√Ķes que se encontrem na origem de nossa maneira de ver as cidade que hoje continuam atraindo o olhar dos escritores... e dos outros cidad√£os tamb√©m.

REFER√äNCIAS BIBLIOGR√ĀFICAS
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00/00/1998

 

 


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