Poesias Publicadas

De "O primeiro anel", 1996

O Casaco



Desamparado um instante me achei:
foi quando me ocorreu estar usando,
qual couraça, aquele casaco velho
que pertencera a meu finado avô.

E as histórias que ele não teve tempo
de me contar ali estavam, no forro
gasto, à espera do momento certo
de tornarem a acontecer comigo.

Nos bolsos, entre as lembranças
de viagens, procuro nossos cigarros:
na fumaça deles procuro ainda
o cheiro do avô em nosso casaco.

Bom tempo em que se podia comprar
roupa que nosso neto iria usar
um dia, envolto em nuvem de fumaça
que bem podia ser também nossa alma.

TRÍPTICO



I.

Não havia no dia um grito,
nem no grito lágrima ou dor;
nem soube encontrar o perito,
na lágrima, um gosto de flor.

A noite era rua deserta,
e a rua, estrada sem fim;
cada esquina, uma descoberta:
cheiro de vômito ou jasmim.

Não achei no dia o inferno,
nem, no inferno, meu doce amor;
nem sei dizer se é moderno
o estilo e a voz do cantor.

Habitavam a noite os sonhos,
e nos meus sonhos, um jardim;
na casa, fantasmas tristonhos
fugiam, com medo de mim.

II.

Dá-me um certo gozo a verdade
de me saber insuficiente:
onde te achar nesta cidade?
(sexta-feira, tão inclemente...)

Sei que invejo aqueles que adoro,
porque chegaram onde eu quis
ir, e amiúde a mim eu deploro
pelo pouco esforço que fiz.

Busco então teus passos na treva,
desejo o sonho, e muito mais.
Cada pensamento me eleva
e alivia, quando é teu cais.

Logo, sei, verei que és somente
um ser humano, e é justamente
tua pequenez o mais profundo:
igual a mim, igual ao mundo.

III.

Ao largo, no horizonte, bela,
ostenta imaculada vela
a nave, como se levasse
o que sonhaste: quem te amasse.

Quem, embora nada soubesse
de ti, andava ao que parece
em teu encalço, pela estrada
de suave luar iluminada.

Trazia, sem embargo, a fronte
carregada de dor e um monte
de perguntas que ao mar jogava,
uma a uma, enquanto esperava:

se não seria tarde, agora;
ou quanto tempo o amor vigora?
Se pode o que arde ser falso;
ou ia um deus andar descalço?

*publicado originalmente em Banco de Talentos. São Paulo, FEBRABAN, 1995.

[sem título]



Parece que enfim cresci,
E estou aí, pelo mundo.
De onde eu vim, esqueci:
Falta-me o pano de fundo.

Parece que agora sou
Adulto, e fechei a porta
Que achei para entrar. Não vou
Lamentar a noiva morta.

Parece que tento, agora,
Fazer algo importante:
Seguir pelo mundo afora
O que me surgir adiante.

(veiculado nos Poemas nos Ônibus, 1993-4)

SONETO XV



Como o fruto maduro que cai, por fim
disseste hoje o indiscutível “não”
que eu temia entrever em cada ação
tua que julgava contar ainda um “sim”.

E embora neste instante falte o chão
sob meus pés, penso que assim
mesmo é um grande alívio para mim
saber a hora certa de soltar tua mão.

Porque é melhor saber que o rim
já não funciona, do que julgá-lo são
até morrer abraçado à garrafa de gim.

Para que eu possa semear um grão
da alegria que colhemos, é que vim
buscar tua palavra. Não foi em vão.

(veiculado nos Poemas nos Ônibus, 1993-4)

SONETO XVI



A criança que olha a chuva não pensa em nada;
e os pássaros não sabem que vão migrar;
nem sabem se é o lume da madrugada,
ou se é o final da tarde que os faz cantar.

Buscamos no futuro o que não sabemos
encontrar dentro de nós, por culpa e temor
de Deus, de Jesus Cristo Nosso Senhor
que nos dará na morte tudo o que merecemos.

E enquanto a vida passa, ao nosso lado,
deixamos de notar a gente que há
em volta, as manhãs e o sol, que estará

mais velho daqui a pouco. E mais delicado
o traço do destino da humanidade.
E mais belo a cada dia o que for verdade.


BALADA II



Brame em meu peito imenso mar,
mesmo mar frio que há milênios atormenta
as pedras da velha Albion.
E mais os olhos de uma criança morta
que me deu para cuidar Cecília Meireles.
E mais que outras forças insondáveis me impelem
a sentar, fitando em pânico a folha branca
na ânsia eterna de enchê-la de coisas de todo o tipo?
Quem me dita este destino?!

Ah, fosse dado a mim o verbo e a graça para tanto!
Que coisas terríveis e belas,
que tragédias, que novelas escreveria?
Um longo uivo onde estivessem vivos
a carne e o sangue de mil cadáveres
da Bósnia Etiópia África do Sul Baixada Fluminense
— só para ficar nos ainda quentes.

E se Virgílio me guiasse pela mão,
ou ao menos Raul Seixas me emprestasse um mapa
desse inferno do poder, através de todos os círculos
desde Wall Street até a Favela da Rocinha...
Que bíblias, que talmudes escreveria com estas coisas
que passo a vida tentando esquecer,
meu terceiro mundo, e último,
por todos os séculos, amém.

Que odisséias de homens em farrapos
morrendo de fome à beira das estradas
que cortam campos ricamente lavrados por máquinas,
onde passam automóveis importados levando gente
que não pode olhar porque não pode ver
porque precisa esquecer que não pode fazer
nada ou o suficiente - ou seja, nada,
exceto esquecer.

Sim, eu me devotaria inteiramente a esse destino,
e me trancaria em meu apartamento pobre
mas decente — ou quase,
com meus discos de boa música
e meus livros de boa literatura,
uma montanha de papel,
e trezentas e dezoito garrafas de bom uísque.

E escreveria...
Escreveria até me sangrarem os dedos,
até meus cotovelos se gastarem,
até tirar de mim todo este peso,
acumulado por séculos de civilização
cobiça morte fome guerra crimes sofrimento
preconceito injustiças pequenas e grandes
miséria e limitação do homem e seus deuses.

Então...
só então,
poderia em paz escrever
sobre o mar bramindo nas pedras alvas do Mar do Norte,
os doces olhos da poetisa;
sobre meu pai, que me ensinou a ouvir música;
meus sonhos de criança, meus bons amigos,
corpo e alma da mulher que amo,
e outras amenidades que insisto em manter vivas
contra todas as possibilidades.

Álvaro Santi
20/12/1996

 

 


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