Poesias Publicadas

De "Dança das Palavras", 1998

Glosando Pessoa



Mal percebo o sentimento
Mais adorável do mundo,
E ele se vai, após curto
E belo espaço de tempo.

E eis que me concentro tanto
No breve instante perdido,
Que finalmente me canso,
E cansado então desisto.

Bem depois, quando nem penso
Em coisa nenhuma, sinto
Tornar, pleno, o momento:
Sentir é estar distraído.


[sem título]



Eu bebo cada palavra
tua como se na malha
fosse um peixe, me envolvendo
cada fio como um desejo.

Nem me ocorre contestar-te,
pra não quebrar essa graça
que se espalha, quando falas,
quase até o planeta Marte.

Como se opera a magia
de eu me enxergar no teu olho?
Que outro espelho mostraria
o que não estava exposto?

De repente ressuscita
aquele menino tolo,
cujo olhar ainda brilha,
sobre o tempo, mais que ouro.

Das cicatrizes antigas,
nenhuma resta fechada:
tornaram a ser feridas,
ou flores desabrochadas?

Conferência



Nada que mor(r)e na língua
é estranho à minha poesia:
durmo com a palavra fria,
acordo com a musa nua.

A mim me ocorre somente
jogar palavras pra dentro
do liquidificador.

(Fonéticas fontes semânticas sementes gramáticas gratuitas semióticos sentidos...)

Mas pergunto ao bom modelo:
onde arrumar os pronomes?
(E o que é pior, os leitores?
E a necessária paciência
para escutar dos doutores
as notórias novidades?)

No gordo Aurélio pesquiso
como emitir um juízo
claro, brilhante, conciso.

Qual o nome do léxico
feito idioma oficial,
de poderes proféticos
pra dizer o real?

Língua que veio boiando
d’além-mar, de tempos outros,
náufraga que recolhemos
entre os papéis de Camões...

Plantar e colher o que, afinal,
no “campo designativo da palavra”?

Exposta a língua em postas,
é tarde para estendê-la:
fio entre entendimentos.
E cedo entretanto
para nos entendermos
sem ela.


Paisagem de um rio no tempo



Sentado no belvedere,
no horizonte miro a curva
do rio que, como eu, descansa.
Sei que a água agora é turva,
tinto sangue das barrancas.
Nem tanto assim a lembrança,
nem o sonho, nem o mito:
quem inventa nunca mente!

Por trás do meu belvedere,
na ciclovia asfaltada,
garotos andam de skate.
Mais além, na correnteza
do tempo, vejo sentado
meu avô com seu cigarro.
Da beira se ouve seu grito:
tanto peixe que só vendo!

Muito antes do belvedere,
um passageiro apressado
da “gasolina” me acena:
onde foi parar a pressa?
(O tempo é tão relativo...)
E a “gasolina” fantasma
passa sob duas modernas
pontes (uma, condenada).

Sonhando no belvedere,
não há idade, não há tempo:
sou e fui uma criança
que nunca mente — inventa!

*Publicado originalmente em CORONEL, Luiz (org.) Cidades Gaúchas - Portfólio poético e documental das cidades do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Posigraf, 1996.

[sem título]



Quero escrever
preciso escrever
quero escrever
preciso escrever
preciso escrever
preciso escrever
preciso escrever!
— isto foi um ponto de exclamação
qualquer semelhança com um cassetete
é uma puta dura
(ai!) coincidência

O SUICIDA FRACASSA



Paro,
penso sobre o parapeito da ponte.

Abro,
rasgo a camisa e,
o peito arfando, discurso
sobre os males de mim-mesmo,
voltado a vida toda sobre
minha imagem refletida n’água.

Volto,
miro águas passadas
que atrás se lançam, sempre,
sem volta.

Encaro,
mordo a superfície fria da lâmina,
que me reflete fria como a face
que se precipita nela.

Podia haver rima,
mas não haveria solução.

Então eu nado...

MANIFESTO



Fodam-se as palavras umas com as outras,
e deixem a nós, humanos, em paz
com nossas imagens mudas, sem lei:
sons que derivam do corpo e do chão.

Invento a bandeira do animalismo,
que tem no escudo um tigre roxo e mau
cercado de rabanetes e flores,
defronte a uma pantera cor-de-rosa.

Porque, dentre os sons, os mais essenciais
não são elas, tijolos que acomodo
no muro ornamentado em que me estreito:
são gemidos, risos, gritos e arrotos.

Sem falar nos silêncios que espantamos
com um grande esforço, e somente à custa
do entupimento de nossos ouvidos,
e da decadência de nossas vozes.

Mas não me deixem só cuspir no prato,
virar o cocho, após satisfeito
com tê-las feito andar sob meu comando:
é com prazer que as ponho em fila, elas.

E é como um remédio, esta brincadeira
que resulta de uma qualquer vontade,
mas não me embriaga, enquanto possa
afirmar que nada são: as palavras!

CIDADEZINHAS



Mosaicos de verde e telhados imóveis.
O vento anima a dança dos eucaliptos.
A chuva faz tudo parecer de vidro.
O sol espanta o povo, e empresta vida
às pedras do calçamento.


Vem a noite, e o som dos bichos acende
medos, desejos e lâmpadas fluorescentes.
O tempo faz crescerem, e leva embora
as crianças. E os homens todos procuram
lugar certo de plantarem uma outra
cidadezinha.

SONATA DE SEGUNDA-FEIRA



Em meio ao caos eu tomo assento,
em conforto, e bem no centro
da cela estreita: — Pois, se estou
feliz, que ordem mais eu quero?

Atendo ao tempo, e sou sincero:
os pequenos vários deuses que venero
em torno se plantam. São convivas
do momento. Que harmonia maior

desejaria, ainda que, em redor,
as meras coisas girem? Tanto pior
para elas, pobres tontas irmãs:
— São o mundo! Que paz, ainda?

RUAS



Fala baixo,
diante destas paredes sujas:
são caiadas de sangue.

Que te façam calar os corpos
esmagados, mãos e braços
no asfalto das ruas estreitas.

Nem queiras lançar tua alma ao vento
num sorriso, que este sofrimento todo
não pede teu sorriso mais franco.

Teus dentes
— Ah, teus dentes brancos!
ficarão cobertos de fuligem.

As paredes, se houver silêncio,
hão de te contar histórias simples,
doloridas, em voz baixa.

Para que procures, de ora em diante,
atrás de cada rosto triste,
o milagre da vida, um sopro impossível.

Ou enlouqueças...

Cantigas de roda típicas das Índias Ocidentais



I.
Atirei um pau no mato
O mato me devolveu
Menino não fez carvão
Foi de noite, não comeu

Menino que tosse, tosse
Menino, deixa eu sonhar
Sonhar só posso de noite
(Será fumaça ou luar?)

Eu sonhei que no cerrado
Eucalipto tinha não
Dia e noite só chovia
Molhava todo o carvão

(Desculpe, não queria estragar o seu churrasco...)

II.
A foice cortou meu dedo,
e o sangue não era doce.
Tive medo,
ou bem melhor: desespero.
Também tive fome, e raiva.
Muita raiva.

Mas fiquei cortando a cana
até completar a cota
desse dia.
Até que o céu se tingisse
igual à cor de meu sangue
derramado.

Acho que eu queria mesmo
tingir o açúcar, tão branco,
de vermelho.
Açúcar que eu nunca vejo,
que recheia açucareiros,
há mais de trezentos anos.

(Quantos dedos, mãos e braços
de quantos meninos mortos,
em branco açúcar tornados,
já terão alimentado
engenho, fábrica, usina;
finas taças adoçado 
com seu sangue?

III.
Primeiro foi meu pai,
segundo meu irmão,
terceiro já não lembro.
A mãe não falou nada:
se falasse, apanhava.
Depois, fugi de casa,
para não virar escrava.

— Ó prostitutazinha,
vamos brincar de amor?
— Brincar não sei que é,
não senhor.

Só sei que, de repente,
estava na avenida,
alugando meu ventre
só pra estrangeiro rico.
(Um ’té me deu presente:
queria me adotar,
levar junto com ele.)

— Ó prostitutazinha,
vamos brincar de amor?
— Amor não sei que é,
não senhor.

Álvaro Santi
20/12/1998

 

 


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