Poesias Publicadas

De "A aposta dos deuses", 2007

CENA IV

[...]

MORTE: - Raça miserável e efêmera,
Filhos do acaso e do tormento!*

APOLO: – Já sei quem és! Minha inimiga,
primeira entre as mais perversas.
Mal um dia eu suspeitei de tua existência
e já te odiava com todo o meu ser.

E em vão tenho travado esse combate
que chamamos vida, breve permanência
na antessala de teus aposentos,
momento de terror antegozado.

E o terror de ti a tudo justifica.
Pois qual tribunal, por mais duro
não perdoará o criminoso
ao considerá-lo no que é:
um miserável condenado
desde o nascimento ao teu abraço?

Por que, ao ter presente a tua imagem,
elegerá este infeliz o bem e o belo?
Ou antes, por que perderá
seu tempo tão escasso na procura
de uma coisa que pode haver ou não,
se ao final não restará do belo,
mais do que do seu contrário,
outra coisa senão pó?

Por isso eu te ignoro
e só assim resisto ao teu poder.
Por isso eu me finjo imortal
e já não me alcança o teu braço.
Fica pra depois o nosso encontro,
que aguardas com tanta ansiedade.

Por isso sem parar construo,
que atrás do muro erguido a prumo
em pedra polida com esmero,
empilham-se os cadáveres dos homens,
e sob o mais firme alicerce
me estão chamando os vermes.

Nada és! Te afasta! Assim te venço,
e só assim mereço ter um nome,
um rastro, um endereço e obras sobre a Terra,
enquanto não me exilo embaixo dela.

MORTE: - Tua presença neste mundo
não faz diferença alguma.
A paisagem permanece idêntica,
mesmo após a terra generosa
abrir-se em mais e mais sepulcros,
nunca suficientes pra aplacar a sua fome.

Séculos depois do teu sumiço
o vento soprará um grão de poeira
que outrora pertenceu à tua mão,
mas foi também de um miserável seixo,
e que antes terá sido um réptil
que ali deixou seu excremento.

APOLO: - Basta, não me venhas com esta arenga,
pouco importa se amanhã meu corpo
não será mais corpo e nem tampouco meu.
E sejam-me vedados tanto a dor
quanto o mais vulgar prazer.
E o próprio desejo se torne impossível.

Terei deixado sobre a terra,
dispersos entre tantas sepulturas,
terei deixado não apenas o meu sêmen
convertido em sangue e carne em outros corpos,
mas também meu próprio sangue viverá
em tinta convertido, e a tinta em versos.

E eis que a cada vez que os leia alguém
irá saber que não está sozinho.
Que o sentimento que os anima agora
e os faz pender no abismo ou ir aos céus
esteve um dia em outros corpos
tão frágeis quanto o seu, e transitórios.

Porém do amor o testemunho
e a dor que eu impotente descrevi,
prevendo de antemão o meu fracasso,
ainda assim ficou gravada a fogo
ou brasa que ao menor alento ressuscita
antes os olhos e os ouvidos
de quem na humanidade creia.

MORTE: – Última esperança dos aflitos,
qual humano ser que sofre
não me desejaria?
Sou aquela que ao final das contas,
esgotada a última esperança,
o infeliz aguarda sem mais forças.

Sou aquela que limpa a humanidade
extingue as doenças
e evita o desastre da fome.
Adubo a terra, limito o sofrimento,
dôo heranças aos que necessitam.
Enforco reis, liberto escravos
e cônjuges infelizes.

E tu, por que foges?
Já sei que não gostas da vida imperfeita
e por isso procuras o belo nas formas criadas,
que quanto mais perfeitas mais vão contra a natureza?

Pois não és tu da língua o escultor,
que da pedra tira o que não presta,
em busca da forma exata?
Então? Sou eu que esculpo a humanidade.
Só venho livrá-la do que não serve.

Não és o poeta que pesa e revira a palavra
e dentre mil outras escolhes apenas a exata?
Assim eu escolho entre tantos o próximo
que ao partir, em silêncio, aos demais vai dizer:
Vêde, apressai-vos! Já tarda! Amanhã sereis vós!

Por isso, já que o bem supremo,
– que seria não teres nascido,
poupando aos teus um enterro –
ao teu alcance não se encontra,
já que nasceste, eu suponho;
contenta-te então com a segunda
melhor coisa deste mundo,
que é morreres de uma vez.

E basta de adiares nosso encontro!

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* Citação de Nietzsche, F. O Nascimento da Tragédia.

Álvaro Santi
20/12/2007

 

 


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