Poemas Inéditos e Avulsos

A teiniaguá

Os mouros de Salamanca,
expertos em artes mágicas,
ficaram loucos de raiva
quando foram derrotados
por armas dos reis de Espanha.
E foram buscar outros pagos...

Então - é o que diz o povo,
trouxeram ao Mundo Novo,
disfarçada entre sua gente,
a mais formosa princesa.
Vencendo mar e tormentas,
vieram dar no Continente.

Guardavam ódio da Igreja,
de santos, cruzes e padres.
Com o diabo fizeram parte,
pra transformar a formosa
princesa moura em feiosa
lagartixa sem cabeça.

E, no lugar da cabeça,
um cristal lhe pôs o demo,
mui transparente, vermelho.
E quando o sol refulgia
nessa gema, sem piedade,
o infeliz que a avistasse,
por descuido, até podia
cego de vez tornar-se.

‒ Ó Teiniaguá,
cabeça de luz,
ai de quem te olhar
a olho nu.

E em sete noites de lua,
tudo ensinou-lhe o demônio:
as artes da bruxaria
mais poderosas que havia
e onde ficavam as furnas
que escondiam os tesouros.

Sendo mulher, e sutil,
desde logo a aprendiz
soube agradar a seu amo.
E em memória de sua terra,
no outro lado do Oceano,
“salamancas” se chamaram
as furnas amaldiçoadas,
que tanta riqueza encerram.

‒ Ó Teiniaguá,
cabeça de sol,
vem me iluminar
em cada arrebol.

Por esses tempos mui duros,
no Povo de São Tomé,
houve um pobre sacristão,
mestiço de pouca fé.

Numa noite de verão,
sob a luz da lua cheia,
enquanto o padre dormia,
o sacristão tomou rumo
de uma lagoa que havia,
a poucas léguas da aldeia.

Nessa noite, a tal lagoa
um caldeirão parecia,
que andasse fervendo o diabo.
Peixe nenhum não se via,
passarinho também não;
o pasto em volta, queimado.
Foi aí que o sacristão
viu mexer-se alguma coisa:

‒ Ó Teiniaguá,
cabeça de sol,
ai do que escutar
tua doce voz!

O sacristão ficou louco.
Pois a lenda que corria
dava, àquele que prendesse
a preciosa Teiniaguá,
poderes de morte e vida,
luxo e riquezas sem par,
castelos de prata e ouro,
rios de moeda corrente.

Tomou então da sua guampa
e nela meteu o bicho.
Escondeu-o em seu quartinho,
dele tratou com desvelo:
deu-lhe mel de lechiguana
e emprestou-lhe o próprio leito.

‒ Ó Teiniaguá,
cabeça de luz,
ai de quem pecar
contra a Santa Cruz.

Mas um dia, a Teiniaguá
retomou a humana forma.
E o sacristão foi tomado
do amor mais louco que havia.

Na igreja buscou o vinho,
pra com ela se embriagar;
presa de enorme cobiça,
em troca de seus carinhos
roubou a Sagrada Hóstia.
Tornou-se, assim, desgraçado.

Dizem que é possível ver,
nas noites enluaradas,
vagar sua alma penada.
O que eu, cá comigo, não sei
é se procura um tesouro,
ou a princesa dos mouros,
que jurou torná-lo rei,
mas fez dele um pobre louco.

‒ Ó Teiniaguá,
cabeça de sol,
ai de quem te amar:
será sempre só.

*Publicado em BRASIL, Cândido (org.) Concurso Literário de Poesia Simões Lopes Neto. Porto Alegre, Estância da Poesia Crioula/Cidadela, 2016. p.55-60

Álvaro Santi
03/01/2016

 

 


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