Poemas Inéditos e Avulsos

Esfinge (2013)



"Et quid amabo nisi enigma est?" (Nietzsche)

Junto à cama, ainda quente,
pés descalços no tapete,
está sentada a mulher.
A cena, em si, é singela:
mais que isso, não revela
a quem pretenda entender.

No espaldar de uma cadeira,
ela apóia sua mão.
Na mesa de cabeceira,
um solitário abajur,
ponto de interrogação
riscado em ouro no azul.

Para onde está olhando?
De que longes terá sede?
A cena mais não me conta,
mas deixa que eu acrescente
os desejos mais humanos,
com que todo o mundo sonha.

Terá visto, pelo vidro
da janela, um passarinho?
Invade suas narinas
o cheiro da maresia?
Pressente um sério perigo?
Escuta um ruído lá fora?
Serão passos de um vizinho,
de quem talvez se enamora?

Sonha a poeira dos caminhos,
por entre as flores que vêm
inaugurar primaveras?
Ou, em silêncio, arquiteta,
seu luminoso destino,
neste planeta ou no além?

Na parede, o planisfério
parece querer lembrar
que a aparente quietude
desse aposento modesto
não é mais que um interlúdio
entre jornadas no ar.

Nesse mapa, ela procura
o seu próximo destino.
(Serve também como régua:
se com ele nós medirmos
homem, mulher, criatura,
pouca coisa nos molesta.)

Haverá outrem com ela
- o autor deste retrato?
Ou o quarto está vazio?
Olhará para a janela?
Será casa ou prédio alto?
Ficará perto de um rio?

Para que, meu deus, pergunto
tantas coisas a um retrato?
Não há respostas, só fatos,
nem sei mais que perguntar.
Melhor deixá-la onde está
e ir tratar de outro assunto.

Melhor deixá-la onde está,
não há sentidos ocultos,
nada tenho a acrescentar.
Seja qual for seu futuro,
já não o pode alcançar
o meu sentimento obscuro.

Deixemo-la estar aí,
com seu vestido lilás
e esse abajur ao lado.
Deixemo-la ser feliz,
felizes de haver deixado
de buscar o que não há.

Esfinge que não pergunta,
não decifro seu olhar.
Melhor deixá-la onde está.
Amanhã será segunda
e eu voltarei, mais tranquilo,
a trilhar o meu caminho,

sem perguntar coisas
que não são da minha conta;
sem navegar para o além
do que eu consigo entender,
pra ver o mundo mais belo
pela lente do mistério.

Álvaro Santi
00/00/2013

 

 


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