Prosa

CANTO LIVRE? Nativismo e Poesia na Califórnia

Álvaro Santi

“Fazer literatura consiste em escrever livros”. (Eduardo Galeano, “Dez erros ou mentiras freqüentes sobre literatura e cultura na América Latina”)

No momento em que estou fazendo a enésima (e definitiva!) revisão neste artigo, ainda não tenho como certa a realização da 30ª Califórnia da Canção Nativa. Porém o fato de realizar-se ou não a tão esperada edição do ano 2000 não altera em nada a importância das 29 anteriores, e a oportunidade do momento para refletir sobre elas e o movimento que desencadearam. Mesmo que a Califórnia não se realize nunca mais, portanto, nada de choro e ranger de dentes... Comemoremos o fato de já termos material de sobra para estudar pelos próximos 30 anos. São mais de 350 canções, sem contar os outros festivais...
Eu particularmente tenho trabalhado com o conjunto dos textos das 66 canções premiadas durante os 20 primeiros anos da Califórnia (1971-1989), procurando lê-los à luz dos movimentos culturais que antecederam o Nativismo, desde o século XIX. Com a visada de conjunto tive em mente, é óbvio, uma perspectiva ampla do movimento, procurando fugir ao viés de análises que se detêm ora em uma, ora em outra canção determinada para via de regra, conforme o ponto de vista do crítico, condenar o Nativismo, seja por seu conservadorismo tardio, seja por suas influências “alienígenas”.
A primeira – e talvez a principal – mudança que a Califórnia veio introduzir no panorama do Tradicionalismo e, por conseqüência, do regionalismo gaúcho, é que em lugar da pesquisa e do resgate de uma tradição, prioridade nas duas primeiras décadas de existência do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), a criação poético-musical assumiu nas três últimas décadas um papel de relevo. Quando Barbosa Lessa, em 1942 (com doze anos de idade), formou o conjunto “Os Minuanos” para interpretar música gaúcha, acabou desistindo por falta de repertório. Esse cancioneiro estava para ser inventado, e sua invenção não foi pouca coisa...
A partir dessa mudança foi possível, a nosso ver, uma relativa democratização do movimento, apontada por Ruben Oliven: “Freqüentemente o renascimento da cultura gaúcha é encarado como uma vitória do Tradicionalismo. É claro que essa ‘vitória’ esbarra no fato de os novos artistas estarem reelaborando temas do Rio Grande do Sul sem se prender a qualquer tipo de dogma e parodiando inclusive a figura tradicional do gaúcho.”
Os próprios iniciadores do Tradicionalismo, demonstrando verdadeira clarividência, já detectavam essas mudanças em meados da década de 70, ainda antes da Califórnia ter-se multiplicado em outros festivais pelo interior: “Se existem hoje milhares e milhares de pessoas filiadas a CTGs ou de outra forma ‘ligadas’ em tradicionalismo, é claro que já existe uma considerável massa consumidora ditando leis ao mercado – seja no tocante à música, à dança, à literatura popular, ao artesanato e outras manifestações da cultura rio-grandense. Torna-se cada vez mais difícil, por isso, ‘ditar leis’ a essa imensa comunidade. E ilusória é a pretensão de quem queira se arvorar em ‘dono da verdade’ em meio a essa avalanche que se expande, cada vez mais vigorosamente, em torno da simbologia gauchesca. O próprio tradicionalismo, em verdade, também entrou na era da comunicação em massa...”
Era verdade. O surgimento do Nativismo coincidia com a explosão da indústria fonográfica no Brasil, fato que lhe possibilitaria tornar-se um fenômeno de massas, cujo produto principal – principal inclusive em termos de impacto econômico! – seria não a bombacha nem a erva-mate mas... a canção.
Mas se nem os fundadores do MTG pretendiam ser “donos da verdade”, quais as bases “tradicionais” de que dispuseram os artistas para a tarefa de criar esse cancioneiro que não existia? Que critérios embasaram os regulamentos dos festivais que orientaram esses criadores? Vejamos.
Não uma, mas duas tradições
Do ponto de vista formal, não há dúvida de que concorrem, para a constituição do que hoje poderíamos chamar o “cancioneiro lírico nativista”, duas tradições distintas, que representam em última análise duas culturas em cuja fronteira não por acaso localiza-se a cidade que sedia a Califórnia da Canção Nativa.
Uma inclui a Gauchesca Platina, os payadores – depois milongueros – improvisando em desafio ou contando, em décimas, oitavas ou sextilhas, histórias às vezes longas, de caráter satírico ou heróico, não raro engajadas nas lutas políticas e militares de seu tempo. Seu representante mais conhecido deste lado da fronteira é o Martín Fierro, de Jose Hernández.
Outra bem distinta é a tradição lírica popular portuguesa, à qual Augusto Meyer demonstrou pertencerem a maior parte das quadrinhas tidas por aqui como “nativas”, e que originou também a produção folclórica autóctone, que inclui os nossos populares “cantos da monarquia”: “Ser monarca da coxilha / Foi sempre o meu galardão, / E quando alguém me duvida, / Descasco logo o facão”
De fato, as duas tradições, até pela sua remota origem comum ibérica, não são completamente estanques e antagônicas, já que a quadrinha, sob a forma característica dos cielitos, não está ausente da Gauchesca Platina; sendo ainda a estrofe preferida dos primeiros milongueros. Na Gauchesca se encontram, por outro lado, muitas passagens que se assemelham aos “cantos da monarquia”, como esta de António Lussich, extraída de Los tres gauchos orientales: “y al mejor he de cortar / si presume de muy bravo, / enterrándole hasta el cabo / mi alfajor sin tutubiar”.
Pode-se objetar que o idioma espanhol em princípio tornaria mais difícil por aqui a imitação dos modelos rioplatenses, mas o argumento não se aplica bem à população fronteiriça. Além disso, a mediação dos poetas filiados à Estância da Poesia Crioula pode ter contribuído para tornar conhecidos tais modelos, em que declaradamente se inspiraram. Membros da Estância – espécie de CTG, só que dedicado exclusivamente ao cultivo das letras – participaram ativamente da criação da Califórnia, e vários desses poetas participaram de festivais como letristas. Um deles, em artigo já citado anteriormente, chega mesmo a afirmar – em tom exagerado, mas sincero – que o Martín Fierro de Jose Hernández “está em todos os galpões e fogões do pampa, sejam eles argentinos, uruguaios ou rio-grandenses do Sul”.
Os próprios “cantos da monarquia”, portanto, podem ter essa dupla origem: quadrinhas populares – de origem lusa – influenciadas pela temática heróica da Gauchesca Platina – de origem erudita. Barbosa Lessa & Paixão Cortes, ao fazerem um balanço da trajetória da música e dança gaúchas, 25 anos passados da primeira apresentação de danças promovida pelo MTG em 1950, já observavam a dupla filiação da Califórnia, cujos “modelos procurados ora pendem para o eixo Bahia-Rio, ora para o eixo Buenos Aires-Montevidéu. Tanto podem ser encontrados vestígios de Geraldo Vandré ou Caetano Veloso, como vestígios inclusive dialetais dos ‘payadores’ platinos”.
Em resumo, a Califórnia – englobados nesse nome um grupo heterogêneo de promotores do Festival, autores, intérpretes, músicos e jurados – não se propôs a inaugurar nenhum novo modelo formal para a poesia regional, predominando nas canções analisadas o modelo do cancioneiro popular gaúcho, com suas quadras de redondilhas maiores e rimas nos versos pares.
O problema dos gêneros
Quanto aos gêneros poético-musicais considerados “nativos”, a Califórnia não apresenta maiores surpresas. Boa parte dos que se encontram nas canções da Califórnia já havia sido descritos por Barbosa Lessa & Paixão Cortes em Danças e Andanças da Tradição Gaúcha (1975). Não há dúvida de que o trabalho de pesquisa desses autores representou um ponto de referência para a Califórnia, ainda que poetas e compositores tenham usado os referidos gêneros com crescente liberdade. Tal liberdade encontra apoio, aliás, no fato, para qual os próprios autores chamam a atenção, de que suas pesquisas centraram-se sempre no aspecto coreográfico dos gêneros. Verifica-se, com efeito, que esses gêneros – milonga, vaneira, xote, mazurca, etc. – não se encontravam ali descritos em termos estritamente musicais ou poéticos.
O destaque individual alcançado individualmente pelo gênero milonga, este sim é uma novidade aportada pelo Nativismo dos anos 80, e tem como conseqüência – ou seria causa?! – um reforço na identidade cultural com os países vizinhos (o tal de MERCOSUL). A milonga, sobre cuja origem platina não pairam dúvidas, impôs-se ao gosto do público gaúcho num movimento que dificilmente se poderá reverter. Exemplo contundente da popularidade atual da milonga foi dada pelo lançamento quase simultâneo, em 1997, de pelo menos quatro discos de músicos gaúchos que exploram o gênero com muita liberdade, submetendo-o a influências as mais diversas: instrumentos orientais, elementos do jazz, da música country, etc.
Entretanto verifica-se que outros gêneros descritos por aqueles autores como “danças gaúchas” – o chamamé, por exemplo, e até o tango, acreditem! – não apenas não adquiriram a mesma popularidade, como também acabaram proibidos expressamente no regulamento da Califórnia, por serem “representativos de países e regiões vizinhas” e por não estarem “integrados à cultura musical rio-grandense”.
Os temas
Quanto a alguns temas abordados – como o êxodo rural, o trabalho campeiro, etc. – conservam-se nas canções da Califórnia uma série de clichês consagrados pela poesia regional, desde o século passado, como a idealização romântica da vida e do trabalho no campo. Em contrapartida, é pequena a ocorrência de canções que evocam fatos históricos determinados, dado que de certa forma surpreende, em vista da origem tradicionalista do Festival.
A natureza, a liberdade e o canto (sintetizados neste último ato também os de compor música e fazer poesia), estão simbolizados perfeitamente no troféu máximo do Festival, a Calhandra de Ouro. Não por acaso, os três termos formam uma espécie de “núcleo temático” em torno do qual gravita a grande maioria das canções analisadas. A novidade em relação aos “cantos da monarquia” e ao regionalismo literário em geral é uma ênfase maior no terceiro deles, o canto. Por intermédio da Califórnia, a virtude do canto é acrescentada às demais virtudes do gaúcho-herói. Contanto que se limite o cantor a cantar o que (e como) definem os regulamentos. Cabe perguntar ainda se não estariam as próprias restrições objetivas à liberdade do artista de algum modo provocando esta insistente ênfase na liberdade como tema das canções.
Sintoma disso é que, além da Calhandra representada no troféu, diversas outras referências a aves aparecem nas canções da Califórnia, sugerindo uma perfeita identificação desse símbolo com o Nativismo. A ave estaria, portanto, na privilegiada posição de representar ao mesmo tempo a liberdade e o canto; ou a liberdade de (para) cantar; ou ainda, a liberdade sem a qual não vale a pena cantar. Constatamos que as canções que privilegiam esse conjunto de temas foram favorecidas, durante o período estudado, com maior probabilidade de arrebatar o prêmio máximo do Festival.
Mercado: do nacional para o regional
Observamos que um dos objetivos originais da Califórnia – “colocar a música do RS no lugar que lhe está reservado no cenário nacional” – teve sua importância progressivamente reduzida ao longo das duas décadas enfocadas por este estudo, em parte sem dúvida pela espantosa ampliação do mercado interno para a música regional. (Entenda-se aqui por “mercado interno” não apenas o RS, mas o conjunto dos Estados onde o MTG se expandiu na esteira do “êxodo” dos gaúchos Brasil afora).
Disso decorre, nas canções estudadas, um aumento das vencedoras com alto índice de vocábulos regionais, quase incompreensíveis para os demais brasileiros. Essas canções, raríssimas na década de 70, são freqüentes na de 80. Por sinal, aquele “objetivo” já não é encontrado no regulamento da 25ª edição do Festival.
No que se refere ao panorama regional, é desnecessário dizer que o Festival teve estrondoso sucesso. Seria impensável o atual mercado de trabalho para inúmeros profissionais ligados ao chamado “Circuito dos Festivais” e à florescente indústria fonográfica local, se não tivesse havido antes de tudo a Califórnia. Cabe perguntar: que espécie de música popular estariam divulgando hoje as inúmeras emissoras de rádio que dedicam boa parcela de sua programação à música regional? O auge do “ciclo dos festivais”, não resta dúvida, ficou para trás. Porém o estigma de “grossura” que pesava sobre a arte de Gildo de Freitas, Teixeirinha e José Mendes – precursores do Nativismo – parece ter desaparecido. Ponto para a Califórnia!
Será? Restam dúvidas. Os autores de uma biografia de Pedro Raymundo – outro artista sobre o qual pesava aquele estigma, e que, com sua gaita inseparável, projetou nacionalmente a imagem do gaúcho na década de 40 – estranhavam, no auge da “onda de nativismo”, que esta “pouco colaborou para resgatá-lo da obscuridade. Não se instituiu nenhum troféu para gaiteiros com o seu nome. A Discoteca Pública do Estado não possui um único disco seu e jamais promoveu a audição de suas músicas.”
Ainda segundo os biógrafos do “Gaúcho Alegre do Rádio”, Vítor Mateus Teixeira – o Teixeirinha – teria solicitado por diversas vezes à Câmara Municipal de Porto Alegre que se homenageasse Pedro Raymundo “com uma estátua ou mesmo com um nome de rua”, sem sucesso. O guia de ruas ainda não traz nenhuma rua com seu nome. É provável que o principal motivo pelo qual o Nativismo (e, por conseqüência, o poder público) não tenha reconhecido até hoje a importância de Raymundo não seja sua “grossura”, nem sua naturalidade catarinense, mas a “perigosa” ambigüidade de sua imagem pública, que oscilava entre o gaúcho e o caipira, sem que ele fizesse questão de demarcar a diferença entre esses dois tipos regionais, pelo que se depreende da sua biografia.
Somem-se a essa ambigüidade a sua veia cômica – categoria considerada “inferior” na Califórnia, que no período abrangido por este estudo jamais deu o prêmio máximo a uma canção com traços cômicos – aliás característica do “caipira”; e algumas canções suas – por sinal inspiradas nos mais autênticos cantos da monarquia! – censuradas pelo Estado Novo por fazerem a apologia da desordem; e teremos um pioneiro incômodo o bastante para ser esquecido. Um exemplo: “Sô cabra bem atirado / Gosto mesmo da desorde / Se vejo o sangue corrê / tudo pra mim é pagode.”
Mas aí já nos afastamos de nosso tema. Registre-se apenas que ainda falta avaliar com cuidado a importância para o Nativismo desses “precursores”. Todos eles, artistas genuinamente populares, embora os defeitos que lhes possamos imputar.
Concluindo...
Constatamos, em suma, uma interação bastante complexa dos textos analisados com as idéias dos movimentos culturais que tornaram possível o Nativismo; e também com as tradições da poesia folclórica brasileira e da assim chamada Gauchesca dos países do Prata. Essas tradições encontram-se “atualizadas” na Califórnia, revelando dados de modernidade, com a consciência possível aos poetas que se submetem às restrições formais e temáticas expressas nos regulamentos; e demarcando uma identidade cultural gaúcha característica da era da comunicação de massa. Identidade que, mesmo conservando fortes traços de idealização e autoritarismo, ajudou a espantar o estigma de “grossura” que, há poucas décadas, marcava as manifestações culturais de caráter regional.
Já que mencionamos os regulamentos, lamentamos constatar neles a absoluta escassez de critérios objetivos para orientação das comissões julgadoras, pressupondo talvez os organizadores, da parte de poetas, compositores e jurados, um pleno conhecimento de princípios não escritos, que seriam de domínio de todos os envolvidos, quando não de toda a população. A conseqüente subjetividade dos julgamentos funcionou, entretanto, como uma “faca de dois gumes”, podendo o prêmio tocar a canções, no que diz respeito à fidelidade à ideologia tradicionalista, tão desiguais quanto “Astro haragano” (XV Califórnia) e “Tropeiro do futuro” (XVI).
Entre nativistas e tradicionalistas, entre “a simpatia pelo novo e uma hospitalidade ampla e generosa” e a criação de “barreiras aos fatores e idéias alienígenas ... que sejam diametralmente opostos ou antagônicos aos costumes e pendores naturais no nosso povo” estabeleceu-se o embate de idéias que resultou na síntese da canção nativista. A contradição encontra paralelo naquela apontada por Angel Rama na obra do fundador da Gauchesca, Bartolomé Hidalgo, que há 150 anos atrás teria optado de maneira conscientemente por “dar un paso atrás con el fin de hacer dos hacia adelante”, ou seja, adotar as formas estéticas tradicionais para veicular mensagens políticas revolucionárias.
Opção idêntica por sinal é que tornou possível o RAP. Valendo-se de rimas simples e até primárias, prescindindo mesmo de cantores e instrumentistas, com os recursos materiais e intelectuais mínimo disponíveis na periferia, conseguiu obter o status de arte e a impressionante repercussão que vimos testemunhando recentemente.
Assim como outros “ismos”, também o regionalismo literário – pois estamos tratando aqui de literatura, ou alguém tem dúvidas? – “como resultado concreto, (...) demanda um cuidado maior da crítica. Freqüentemente, programa e obra mantêm uma relação tensa, quando não se contradizem abertamente (...) É preciso, então, ultrapassar o critério conteudístico e levar em conta o modo de formar, observando como certas obras, para além do assunto regional, buscam harmonizar tema e estilo, matéria-prima e técnica...” Parece-nos que é exatamente desta contradição que têm surgido as mais felizes criações poética da Califórnia.
É quando o anônimo ex-combatente, tal qual Blau Nunes, relembra o passado, mas para queixar-se (coisa que o personagem de Simões Lopes não se permitia) de que as glórias são apanágio dos “caudilhos” e “coronéis” (“Veterano”, X Califórnia). Ou quando, parodiando a liturgia católica — de escassa ou nenhuma influência na tradição gauchesca — e incluindo ainda um vocábulo italiano, o poeta procura esconjurar os fantasmas insepultos do “pampa-pietà” (“Pampa Pietà”, XXVII). E ainda quando, pela inserção de uma pitada de ironia, o “monarca das coxilhas” desce de seu pedestal (ou do cavalo) para transformar-se no lírico “Gaudêncio Sete Luas” (II) que um jornalista apelidou com desprezo de “herói sem osso” . Quando, ademais, um singelo “comunicado” através do rádio – elemento já nem tão moderno, mas ainda de grande utilidade em paragens longínquas do interior – é evocada pelo poeta no que tem de plangente e característico do cotidiano atual dos trabalhadores rurais (“Comunicado”, XIII). Ou quando a Campanha deixa de ser o “paraíso perdido” e a representação tradicional do êxodo rural é problematizada, dissolvendo-se a diferença entre o “pasto” e o “asfalto” ou entre o “chinelo” e a “espora”, e ficando no ar a pergunta “Pra onde ir?” (XIV). Quando, enfim, o tema da escravidão, mesmo servindo de pretexto para a representação da superioridade “paternal” do branco – que afirma “o teu braço ... sustentou o meu Estado” – propicia um retrato preciso do caráter sangrento da economia do charque, sob cuja ótica não se diferenciavam o boi e o “Escravo de saladeiro” (XI).
Dez anos depois
Fazemos aqui um salto por sobre toda a década de 90, deixando de analisar um número grande de canções. É fundamental esclarecer que não fazemos este salto por considerar que a música nativista a partir dessa década tenha entrado em “franca decadência” ou coisa assim. Até porque para dizer isto com propriedade seria necessário tê-las analisado, o que não fizemos. Nossos estudos tiveram início ainda na primeira metade da década de 90, e não achamos nada prático ir agregando a cada ano mais algumas canções ao corpus. Além disso, um mínimo de distanciamento temporal é sempre recomendável para se examinar as coisas com (certa) frieza.
Saltamos, pois, direta e perigosamente, de 1989 para 1999. O ano que passou viu recrudescer nos pagos o debate em torno da cultura gauchesca. Antes, é importante que se diga que o assunto tem sido raramente abordado nos últimos anos, passado o auge dos festivais. Mesmo então, os festivais em si poucas vezes promoveram o debate dentro de sua programação oficial, ficando no mais das vezes restrito à charla ao pé do fogo, à roda de mate ou às páginas dos jornais, passado o evento. Eis alguns eventos que colocaram o tema em pauta, todos eles acontecidos na Capital.
1) “Ah, eu sou gaúcho – Seminário sobre a identidade cultural do RS”. Durante os meses de setembro e outubro, promovido pelo Governo do Estado através do IGTF, CCMQ, IEL e Museu Antropológico do RS. 2) “De faca na bota”. Promovido pela SMC, na Usina do Gasômetro. 3) “RS Música”. Promovido pelo Sindicato dos Compositores Musicais do RS, com apoio do Governo do Estado e Assembléia Legislativa. De 26 a 28 de maio. 4) “I Seminário de Música do Governo Democrático e Popular”. Em 31 de maio, onde se debateu, em um dos três painéis, “Os festivais de música e o Papel da Lei de Incentivo à Cultura” (E outra vez entenda-se: “festivais de música nativista”.) 5) “Seminário Globalização e Culturas Regionais”. Promovido pela Câmara Municipal, com o apoio do IGTF. Dias 11 e 12 de junho.
Afora estes eventos, devemos destacar ainda a programação da Semana Farroupilha, que só há pouco tempo vem recebendo apoio dos governos do PT (da Capital e, agora, do Estado), coisa inimaginável há 20 anos atrás, quando não só esses governos não existiam como o Tradicionalismo era visto com maior preconceito pela esquerda. O partido da situação conta hoje com um “núcleo nativista” bem atuante, e a participação de órgãos do governo em todos os eventos citados acima é prova da íntima conexão entre este momento fértil em debates culturais e o momento político que sucedeu a vitória de um candidato que explorou conscientemente sua imagem de autêntico “gaúcho missioneiro” como estratégia de campanha. Vitória, aliás, garantida no segundo turno pela adesão do eleitorado de municípios das regiões mais identificadas com essa imagem. Não por acaso, regiões que mais vem sofrendo há décadas dificuldades econômicas, por motivos já estudados de sobra por gente do ramo.
Mas estou me adiantando, pois antes de me enredar na espinhosa relação entre política e cultura quero estender um pouco mais esta retrospectiva, passando a outros dois debates de 1999, que tiveram lugar na imprensa:
1) A polêmica suscitada pelo sucesso da assim chamada “Tchê Music”, que utiliza sem preocupações de fidelidade elementos da cultura tradicional, voltada especificamente para os bailes que de repente passaram a atrair grandes massas de público jovem na região metropolitana. O MTG reagiu chamando a atenção das entidades filiadas: “O CTG que necessitar fazer a contratação de conjunto musical que distorça a música, que despreze a pilcha ou que use de recursos próprios de culturas alienígenas para obter lucro deve pensar se não está na hora de trocar de nome e de finalidade”. As palavras tolerantes de Paixão Cortes e Barbosa Lessa, citadas bem no início deste artigo, parecem ter sido esquecidas...
Quem ao longo de três décadas acompanhou de perto a progressiva diluição da polêmica entre nativistas e tradicionalistas não pode levar esta muito a sério. Ao empenhar-se em conquistar o público jovem brasileiro, como qualquer banda de rock, o pessoal da Tchê Music não deixa de perseguir, com sua estratégia própria, aquele objetivo expresso em 1971 no regulamento da I Califórnia. Por ironia, o sucesso e a polêmica ajudaram a despertar alguma atenção da imprensa do centro do país, fato raras vezes alcançado mesmo no auge do movimento nativista.
2) Outra polêmica, a que sucedeu à morte do genial poeta Jayme Caetano Braun, suscitada por um artigo de José Hildebrando Dacanal que causou furor no meio nativista. Publicado por ZH em julho, foi respondido pelo compositor Talo Pereyra, e treplicado pelo autor no mês seguinte (até onde eu sei parou aí). Infelizmente para nós todos, leitores, o entusiasmo fez com que os contendores passassem imediatamente a outros planos (o político, notadamente) não lhes permitindo deter-se no ponto de partida: a poesia mesma do payador, sobre a qual passaram batido, perdendo a oportunidade de demonstrar seus pontos de vista.
É à luz desses últimos debates que pretendo modestamente reivindicar o que me parece geralmente esquecido neles: a possibilidade da separação entre a questão estética e a política. É curioso que o próprio Dacanal já criticava, há alguns anos, aquelas “pessoas que confundem história e dominação social com produção artístico-cultural”. Segundo ele: “Os tradicionalistas eram – e são – culturalmente conservadores, mas isso não implica obrigatoriamente que o sejam também em política. E se os nativistas, sem dúvida, criaram o novo no plano da cultura, isto não lhes dá – e nem haveria por que dar-lhes – o salvo-conduto de progressistas”.
Pois a discussão que aos músicos e poetas – nativistas ou tradicionalistas (ou “tchê-musicistas”?) – verdadeiramente está por fazer é a estética. Raramente ela tem sido aprofundada com rigor científico, nestas três décadas passadas, misturando-se com freqüência letra, música, história, política e, com o advento das leis de incentivo, até economia!
Foi esta a contribuição que me propus dar ao debate. Mas não me entendam mal: não estou sustentando que o artista deva limitar-se a subir ao palco, cantar, pôr sua viola no saco e ir embora mudo. Como cidadão ele tem todo o direito de discutir suas condições materiais de trabalho – que no caso dos músicos aliás não estão nem perto das ideais. Sustento, isto sim, que onde e quando se discuta a música gaúcha, se reserve um espaço para discutir música. Que tal começar pela questão “existe uma música gaúcha”? Muito batida? Pois se tivéssemos mais paciência com esta, quem sabe quantas outras polêmicas se resolveriam em conseqüência. Vá lá que não fosse para todo o sempre, eu sei, que já seria utopia...
Ou então, corre-se o risco de debater em vão, já que os interesses do prefeito que quer promover um festival em sua cidade; do compositor que quer mostrar seu trabalho; do patrão do CTG que quer o melhor para sua entidade; do produtor que quer ganhar dinheiro (quem não quer?), do patrocinador que quer ver sua marca aparecendo e do espectador que só quer se divertir são em princípio radicalmente distintos, e cada um tenderá a puxar a brasa para o seu churrasco.
Por fim: os escassos e pioneiros estudos sobre o assunto, mesmo aqueles cheios de defeitos, têm de ser editados, reeditados, lidos e debatidos, para não se correr o risco de reinventar a roda. E muitos outros devem ainda ser escritos, num processo de reflexão que necessariamente envolverá também as Universidades, que já há tempos começaram a se dar conta de que a cultura popular também é cultura. Ao trabalho, pois.

Álvaro Santi
00/00/2001

 

 


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