Prosa

Blau Nunes e “O narrador” de Walter Benjamin: confrontos (ensaio, 1996)

Álvaro Santi

Encontramos no texto de Walter Benjamin, O Narrador, diversas “observações” — como diz o subtítulo — que, embora dirigidas à obra de um autor russo entre nós praticamente desconhecido, talvez apresentem algum interesse enquanto possamos refletir, à luz delas, sobre narradores mais próximos. É o que procuramos esboçar neste ensaio.
Cronista ou narrador?
A própria acepção da palavra alemã Erzähler, traduzida como narrador, e literalmente traduzível como “contador” (de contar, enumerar), remete-nos ao significado original da palavra crônica, história contada de forma enumerativa, como seqüência de acontecimentos ordenados cronologicamente. Segundo Benjamin, os cronistas medievais, precursores dos modernos historiadores, ao contrário destes,
“...na medida em que subordinavam a historiografia ao plano divino da salvação, que é imperscrutável, livravam-se de antemão do peso da explicação demonstrável. Entra em seu lugar a interpretação, que nada tem a ver com o encadeamento preciso dos acontecimentos, mas com a maneira de enquadrá-los no curso insondável do universo... O cronista conservou-se no narrador numa forma metamorfoseada, por assim dizer secularizada.” .
No caso específico do Brasil,, o gosto pela crônica histórica, originário da tradição portuguesa da época dos descobrimentos, é uma das primeiras linhas mestras a se manifestarem na literatura, adquirindo aqui características próprias.
“... a atitude desses cronistas, acompanhando o processo de identificação do colonizador europeu com a paisagem americana, é o germe da nossa historiografia, na sua maneira informativa e descritiva, a partir do testemunho pessoal, da observação direta e da informação de terceiros até o fundamento indispensável da documentação. É, também, com o louvor da terra, o germe do sentimento nativista, como ponto de partida, embora remoto, da formação da consciência nacional.”
Já aí podemos notar uma grande afinidade entre o narrador de Benjamin, originado no cronista, e o narrador regionalista brasileiro, de que vamos tratar. Ao contrário de uma tradição européia, que acreditou encontrar enfim na América o “paraíso terrestre”, a promessa do “Eldorado”, para o nosso narrador, quatro séculos mais tarde, o paraíso está irremediavelmente perdido, no passado. Diz Benjamin:
“A época em que o homem podia acreditar-se em sintonia com a natureza, diz Leskow, acabou. Schiller chamou essa época do mundo de época da poesia ingênua.”
Acredito que também podemos chamá-la “mítica”. Blau Nunes, o narrador dos Contos Gauchescos, parece vir de uma tal época.
Sobre a relação entre história e narrativa em Simões Lopes Neto, a crítica aponta para direções diversas. Ao analisar “A Salamanca do Jarau”, Flávio Loureiro Chaves demonstra exaustivamente a inserção do narrador Blau Nunes (personagem, e não herói) no plano da história, fora do plano mítico, portanto. Embora aproveitando-se de uma lenda preexistente, Simões Lopes Neto reescreve com ela um conto à luz do seu tempo e lugar, terminando o mundo humano por destruir o mito.
Regina Zilberman, ao contrário, escreve: “...com ele, a mitologia gaúcha alcança seu apogeu, pois Simões Lopes alça o vaqueano à condição de mito com os Contos Gauchescos e Lendas do Sul, para depois dessacralizá-lo, nos Casos do Romualdo.”
Lígia Chiappini atribui a problematização desta história à mudança do foco narrativo, tendo como conseqüência “a relativização da historiografia escrita do ponto de vista da classe dominante”.
Ao comentar a célebre polêmica sustentada em 1925 entre Moysés Vellinho e Rubens de Barcellos a respeito da obra de Alcides Maia, José Clemente Pozenato observa que as duas dimensões — mítica e histórica — convivem, e não se excluem:
“... ao lado de uma gauchesca de caráter documentário, seguindo passo a passo as transformações do tipo social do gaúcho, há uma outra de caráter que se poderia chamar mítico, onde a imagem fixada permanece idêntica ao padrão original, também ele mítico.”
Narrador & personagem
Pozenato também enfatiza com muita felicidade as conseqüências do duplo papel narrador-personagem atribuído a Blau Nunes, que assume importância muito maior do que quaisquer personagens dos causos por ele narrados:
“A única personagem criada por Simões Lopes Neto em Contos Gauchescos é Blau Nunes, o vaqueano. E isto é de significação primordial para a compreensão do modo de ser de sua obra... O autor desaparece diante dessa figura que fala: torna-se simples e humildemente um rapsodo, alguém que deixa passar o dito de outro, que é o verdadeiro poeta, o criador de uma realidade... Blau Nunes é sua linguagem, é sua fala. Ele não é narrado por outrém, não é visto de fora. Não tem narrador, tem apenas ouvinte. O mundo começa a existir quando ele começa a falar.”
Regina Zilberman relativiza esta exclusividade de Blau Nunes, observando que ele protagoniza apenas o conto inicial (“Trezentas Onças”): “As demais histórias têm outros protagonistas, passando Blau a um lugar secundário, enquanto testemunha dos eventos ou mero colaborador para o andamento da ação” Podemos observar também em “Os Cabelos da China” uma participação mais efetiva do narrador na ação do que nos demais contos; e em “Correr Eguada”, onde o tom memorialista-descritivo não destaca nenhum personagem em especial.
Para Flávio Loureiro. Chaves, os Contos Gauchescos, por serem narrados por um único personagem a um único ouvinte, formam uma unidade narrativa, superando a fragmentação aparente, “... o motivo da viagem servindo para deflagrar no espaço da memória a atualização do passado, assegurando assim a relativa unidade da seqüência episódica”.
Nômade ou sedentário?
É curioso notar que Blau Nunes sintetiza muito bem a polaridade estabelecida por Benjamin entre dois tipos básicos de narradores, conforme sua origem:
“Quando alguém faz uma viagem, então tem alguma coisa para contar, diz a voz do povo e imagina o narrador como alguém que vem de longe. Mas não é com menos prazer que se ouve aquele que, vivendo honestamente do seu trabalho, ficou em casa e conhece as histórias e tradições de sua terra. Se se quer presentificar esses dois grupos nos seus representantes arcaicos, então um está encarnado no lavrador sedentário e o outro no marinheiro mercante. De fato os círculos vitais de ambos de certo modo produziram sua própria linhagem de narradores.”
Segundo Benjamin, o trabalho de Leskow o obrigava a freqüentes viagens pela Rússia, “... e tais viagens incrementaram seu discernimento do mundo tanto quanto seu conhecimento das condições de vida russas” .
É de se esperar que o caráter regionalista da literatura fosse de inteira responsabilidade de um narrador sedentário. Porém o tropeiro Blau Nunes, de vida quase nômade, entre períodos de guerra e de paz aprendeu também “as histórias e tradições de sua terra”, o que podemos especialmente comprovar nas Lendas do Sul. E procura ele mesmo compor novas, que são os Contos Gauchescos. Pode agora aliar, como diz Benjamin, “... o conhecimento do lugar distante, como o traz para casa o homem viajado, com o conhecimento do passado, da forma como este se oferece de preferência ao sedentário.” Não era de se esperar que o gaudério (conforme a acepção original da palavra), tipo puramente nômade do pampa, tido como pária marginalizado e semi-bárbaro pudesse, com facilidade, converter-se “...na forma em que o justo encontra a si mesmo”.
Esta visada sociológica, que relaciona a origem da atividade do narrador com sua atividade econômica, encontra eco no já citado ensaio de Pozenato. A pouca atenção dada à descrição da natureza, para ele, está na medida inversa daquela dispensada ao trabalho do homem sobre esta natureza. É fácil encontrar exemplos em quase todos os contos.
No livro O Gaúcho: Ficção e Realidade, Antônio Hohlfeldt vê no momento histórico de transição a possibilidade dessa síntese entre o nômade e o sedentário. Para ele, as ações narradas por Blau Nunes...
“... traduzem, de maneira clara, uma tentativa de compreensão, de ligação entre dois períodos distintos: aquele da liberdade sem fim e da inexistência de cercas e o do nascimento da propriedade demarcada. O sedentarismo começa a existir no pampa e com ele as primeiras estruturas feudais e depois classistas, diferenciando-se o patrão e o peão.”
O mesmo crítico soube superar com felicidade esta aparente dicotomia, ainda objeto de discussão na historiografia do Rio Grande do Sul:
“Porque o nomadismo não exclui a esperança longínqua de retorno ao lugar primitivo, e a posição de destaque no anedotário campeiro que ocupa a tapera dá bem a medida desta realidade. A casa — o rancho, mesmo o mais pobre, coberto de sapé — significa o aconchego e a perspectiva de um lar, ainda que temporário. Não se contradiz, com isso, a idéia do gaúcho a cavalo, a levar no dorso do animal todos os seus pertences,... Ser arrancado de seu chão, sobretudo quando não o moveu a própria vontade, é o pior mal que advém para o campeiro. É este o estigma que pesa constantemente sobre o peão ou posteiro, em especial nos tempos que nos são mais próximos.”
Por uma perversa ironia, a última e irreversível migração, seria a que tem como destino a periferia das grandes cidades, onde enfim, num ambiente totalmente alheio àquele passado mítico, este gaúcho “livre” se “sedentarizaria”.
É esta mesma migração, associada ao cercamento dos campos e ao desenvolvimento das cidades que fará o homem da cidade idealizar o campo que não possui mais, num passado que nunca houve, por um esforço de compensação que “...forja para todos uma outra imagem de si mesmos. As privações de toda ordem são substituídas pelo lombo do cavalo convertido em trono. Os limites e as limitações cedem lugar à liberdade e ao campo sem fim.”
Idêntica posição é defendida pelo historiador Décio Freitas, ao comentar a ideologia que procura estabelecer a imagem daquele mundo harmônico do passado como “mito da produção sem trabalho”:
Inculca-se a vida do gaúcho, errando de estância em estância, em busca de trabalho, como mera vagabundagem, fruto de uma inadaptação social. Converte-se a falta de trabalho em horror ao trabalho. Pretende-se que o espírito de independência e liberdade o tornava infenso à família, quando a verdade é que não podia sustentar uma família; os estancieiros não queriam saber de peão com mulher e filhos, pois estes, no mínimo, comiam, o que impunha um maior salário.”
Provérbios & conselhos
Se, como quer Benjamin, “o narrador é um homem que dá conselhos a seu ouvinte” , é mais uma vez Blau Nunes que se apresenta. Encontramos nos Contos Gauchescos um — que não é conto coisíssima nenhuma — intitulado “Artigos de fé do gaúcho”, que é precisamente uma relação de conselhos ou provérbios. Ali o narrador se coloca abertamente na posição de conselheiro, assumindo aquela autoridade de que, segundo Benjamin, “até o mais miserável pé-de-chinelo dispõe diante dos vivos, na hora de morrer.” Reproduzimos os parágrafos introdutórios a estes “Artigos...”:
“Muita gente anda no mundo sem saber pra quê: vivem, porque vêem os outros viverem. Alguns aprendem à sua custa, quase sempre já tarde pra um proveito melhor. Eu sou desses. Pra não suceder assim a vancê, eu vou ensinar-lhe o que os doutores nunca hão de ensinar-lhe, por mais que queimem as pestanas deletreando nos seus livrões. Vancê note na sua livreta:...”
Pois o provérbio nada mais é, para o pensador alemão, do que a “moral” de uma história antiga que com o tempo se perdeu. O que não quer dizer que obrigatoriamente cada história possa ser facilmente resumida num provérbio, e depois descartada.
Encontramos nestes provérbios aquele “interesse prático” que Benjamin atribui a muitos narradores. Mesmo na poesia — de Virgílio, por exemplo — podemos encontrá-lo: “Clara ou oculta, ela [a narrativa verdadeira] carrega consigo sua utilidade. Esta pode consistir ora numa lição de moral, ora numa indicação prática, ora num ditado ou norma de vida.”
Encontramos este propósito definido nos demais Contos Gauchescos? É possível, porém nunca tão evidentes e, por isso mesmo, quem sabe mais eficientes. A julgar pela introdução despretensiosa ao conjunto dos Contos, não é o propósito do narrador nada mais que expor suas recordações — expressa na bela metáfora “...como quem estende ao sol, para arejar, roupas guardadas ao fundo de uma arca.” Também passa ao largo de manifestos teóricos ou ideológicos de cunho regionalista, tais como — quase quarenta anos antes — o primeiro poeta a escrever um livro inteiramente regionalista julgara importante escrever, no prefácio intitulado “Convém ler”. Parece que o intuito de pintar a paisagem riograndense com seus tipos havia se tornado, a esta altura, conseqüência natural das discussões do século anterior, especialmente as elaboradas no interior do movimento do “Partenon”.
Informação ou sabedoria?
Assim como o cronista medieval não explica a História, Blau Nunes, não enuncia o conselho ou “moral” de cada causo — exceto, naturalmente, nos já citados “Artigos”. Deixa que o leitor tire suas próprias conclusões. Assim como a pequena história de Heródoto, citada por Benjamim e comentada por Montaigne. Para Benjamin, “Se a arte de narrar rareou, então a difusão da informação teve nesse acontecimento uma participação decisiva.” Não somente a difusão, podemos afirmar, mas a simultânea sistematização da informação e do conhecimento em compartimentos perfeitamente definidos e estanques. Prossegue Benjamin:
“Cada manhã nos informa sobre as novidades do universo. No entanto somos pobres em histórias notáveis. Isto ocorre porque não chega até nós nenhum fato que já não tenha sido impregnado de explicações. Em outras palavras: quase mais nada do que acontece beneficia a narrativa, tudo reverte em proveito da informação. Com efeito, já é metade da arte de narrar, liberar uma história de explicações à medida que ela é reproduzida.”
Podemos afirmar que, seja a intenção do narrador transmitir uma “moral da história”, seja fixar uma paisagem local “tal como ela é”, conforme a doutrina do naturalismo científico, com o máximo de verossimilhança, tal intenção não deve ser francamente explicitada ao nível do texto, como no caso dos “Artigos...”, sob pena de limitar as interpretações do ouvinte ou leitor da narrativa, empobrecendo a leitura.
A explicitação excessiva é criticada — com ressalvas — por Flávio Loureiro Chaves em outro dos Contos Gauchescos, que tem um caráter igualmente “pedagógico”. Trata-se de “Batendo Orelha!...”:
“Trata-se evidentemente dum texto de sentido moral ou pedagógico no qual Simões Lopes Neto pretendeu construir uma fábula, retomando o tema que pertence à tradição de toda literatura ocidental e está em consonância, aliás, com o seu universo imaginário: a coincidência dos opostos. Mas é literariamente, um dos seus piores textos e, com certeza, o mais fraco dentre todos os que formam os Contos Gauchescos, justamente por causa do moralismo aparente. No fundo é o mesmo que percorre toda a obra, que está subjacente à ética simoniana e até determina certos princípios da conduta de Blau... Não obstante, o texto importa na definição temática dos Contos Gauchescos, porque aí transparecem alguns elementos cuja identificação se faz mais complexa naquelas passagens onde a expressão metafórica instaura uma pluralidade de significados.”
Lígia Chiappini discorda desta avaliação, afirmando existir neste conto, em vez de esquematismo, uma...
“... experiência arrojada para a época, de síntese, de economia, de brevidade, talvez por ser o conto que mais cruelmente, mais instantaneamente, mais secamente, nos remete ao problema que vimos acompanhando desde Lendas do Sul: da modernização e dos seus efeitos degradantes, para os homens e para os bichos.”
Chaves acredita ler, ao longo dos Contos Gauchescos um verdadeiro “sistema ético” que, orientando a conduta de Blau Nunes, fá-lo emitir opiniões e conselhos ao ouvinte mais jovem, do alto de sua experiência, da qual uma pequena amostra é ali relatada. É uma visão de mundo algo pessimista. Não é difícil encontrar exemplos, fora dos pouco felizes e já citados “Artigos..” e do “Batendo orelha”. À moda tradicional da “moral”, ou seja, enunciados no final do conto, como em “O negro Bonifácio” (“Estancieiras ou peonas, é tudo a mesma cousa... tudo é bicho caborteiro...; a mais santinha tem mais malícia que um sorro velho!...” ), “Correr Eguada” (“É verdade que há muita cousa boa, isso é verdade... mas ainda não há nada, como antigamente, tomar mate e correr eguada...” ) e “Juca Guerra” (“Um gaúcho de alma não abandona assim o seu cavalo: antes mata-o, como um amigo que não emporcalha o seu amigo!” ) Ou, de forma invertida, no início, como em “O Boi velho”: “Chê-pucha!.. é bicho mau, o homem!” .
Pozenato relaciona esta ética do narrador Blau Nunes com aquela ênfase no fazer do homem, no mundo do trabalho: “É pelo fazer, pelo modo de fazer, que se revelam e se diferenciam os homens uns dos outros. O que eles dizem deverá ser sempre corroborado pelo que fazem.” Os personagens por quem Blau Nunes expressa admiração são sempre bons em fazer algo, nem que seja brigar: o Juca Picumã de “Os Cabelos da China” (“...que tinha mãos de anjo para trabalhos de guasqueiro, desde fazer um sovéu campeiro até o mais fino preparo para um recau de luxo, mestraço, que era, em armar qualquer roseta, bombas, botões e tranças de mil feitios.” ), o “Juca Guerra”, o Reduzo de “Melância-Coco Verde” e mesmo “O Negro Bonifácio” (“... Se o negro era maleva? Cruz! Era um condenado!... mas, taura, isso era, também!” )
É de se perguntar, afinal, se a inutilidade progressivamente crescente do conselho — e conseqüentemente da narrativa — como fonte de transmissão de sabedoria não decorre da progressiva sistematização do conhecimento, que hoje se quer totalmente “armazenado” nos livros, aliás já previsível desde a separação estabelecida pelos gregos entre doxa, a opinião, e episteme, o conhecimento.
É espantoso verificar neste texto dos anos trinta, mais uma vez, a atualidade quase profética de Benjamin, ao constatar o declínio da importância da experiência direta como fonte de sabedoria: “... a experiência caiu na cotação. E a impressão é de que prosseguirá na queda interminável.” Pois que importância damos hoje às histórias que possam contar os mais velhos? Que necessidade podemos ter dessa transmissão de experiência, já que toda a informação encontra-se nos jornais e livros, classificada sob a forma dos vários ramos da ciência? Será este um dos motivos da crescente marginalização em que se encontram os velhos na sociedade? Não será frustrante ter muitas histórias para contar e nenhum público?
Blau Nunes, o narrador-personagem dos Contos Gauchescos de João Simões Lopes Neto, que teve a fortuna de nascer em outros tempos, ainda teve seu público atento, ao que parece. Aos oitenta e oito anos, quase nada tem de seu, mas tem o que contar. A experiência é sua riqueza. E tudo o que conta, viveu. Na leitura do texto temos obrigatoriamente a sensação de o estar ouvindo, e quase temos vontade de intervir com alguma pergunta:
— Mas foi mesmo assim, seu Blau?
Trabalho, tédio & atenção
É interessante observarmos como o tempo encarregou-se de complicar uma afirmação de Benjamin sobre o estado de espírito mais favorável à audição de uma história, e mesmo à sua narração, num ambiente de trabalho manual monótono:
“Se o sono é o ponto culminante do relaxamento físico, então o tédio o é da distensão espiritual. O tédio é o pássaro onírico que choca o ovo da experiência... Seus ninhos... já morreram nas cidades, mas também no campo estão em ruínas.”
Tomemos o ambiente mais ou menos familiar em que podemos facilmente imaginar Blau Nunes contando suas aventuras: o galpão. Havia tédio ali, não há dúvida. Era noite, ou fazia mau tempo, e os homens não encontravam muitas maneiras de passar o tempo, entre o churrasco, o mate, o palheiro, a canha e a conversa fiada. É evidente também que este ambiente propício não existe mais, tal como nos primórdios do século XX, enquanto Simões Lopes escreve seus Contos Gauchescos. Mas há outros. Na cidade e no campo, há inúmeros ambientes propícios, mas todos ligados ao ócio, não ao trabalho. Porque o tédio só parece ter aumentado nas cidades, e não desaparecido, como supunha o crítico. Não podemos imaginar nada mais tedioso que o trabalho dos operadores de todo o tipo de máquinas modernas, por exemplo. Nada mais tedioso, e no entanto, como poderá ele ouvir uma história? Não há tempo. As considerações pessimistas de Paul Valéry, citadas por Benjamin, sobre este fato, só fizeram se acentuar até os anos noventa: “... acabou o tempo em que o tempo não vinha ao caso. O homem de hoje não trabalha mais no que não pode ser abreviado.” Benjamin cita como um dos sinais desta transformação a invenção bem sucedida da short story. Podemos acrescentar a descoberta e a crescente popularidade do Haikai no Ocidente.
As observações de Benjamim sobre os ambientes tediosos do trabalho manual, onde as mãos ocupadas não perturbavam a atenção da mente, estão relacionadas à sua preocupação com a perpetuação da narrativa oral, através da única maneira possível, isto é, a retenção pela memória do ouvinte:
“Quanto mais esquecido de si mesmo está quem escuta tanto mais fundo se grava nele a coisa escutada... A relação ingênua entre ouvinte e narrador é dominada pelo interesse em reter a coisa narrada... O ponto chave para o ouvinte desarmado é garantir a possibilidade da reprodução”
A primeira destas frases pode, no que diz respeito à memorização involuntária, aplicar-se-ia hoje perfeitamente à eficiência da publicidade, e mesmo ao papel dos meios de comunicação de massa como modeladores de comportamentos. Nas palavras de Antônio Cândido:
“Em nosso tempo, uma catequese às avessas converte rapidamente o homem rural à sociedade urbana, por meio de recursos comunicativos que vão até a inculcação subliminar, impondo-lhe valores duvidosos e bem diferentes dos que o homem culto busca na arte e na literatura”.
Afora isto, não nos parece que algum ouvinte dos anos noventa vá sequer preocupar-se em reter qualquer coisa na sua memória para perpetuá-la, pois isto não é absolutamente necessário numa sociedade que tem à sua disposição tanta memória quanto necessite para registrar tudo em jornais, livros, filmes, discos, fitas e bytes. A não ser que o ouvinte pretenda ser, por sua vez, um narrador.
Narrador que seria de grande importância na conservação de uma tradição popular verdadeira, que pudesse aconselhar os ex-trabalhadores rurais que, migrando para a periferia das cidades, ficam a mercê dessa “espécie de folclore urbano que é a cultura massificada” . O irônico é que, no caso específico do Rio Grande do Sul, a cultura de massa se apropria do folclore de origem rural, “nativista” ou “gauchesco”, fazendo dele mais uma mercadoria, com a desvantagem (ou “diferencial mercadológico”) de carregar consigo um falso status de legitimidade.

Álvaro Santi
00/00/1996

 

 


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